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Édipo já furou os próprios olhos mas ainda não salvou ninguém

Maio 16, 2007

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Não tenho nada a acrescentar à data e hora: 11 e 12 de Maio, às zero horas – o tempo que fale por si. Mas quanto ao local, arrisca-se dizer que não podia ser melhor escolhido. Largo de Camões, ponto de encontro dos noctívagos, local obrigatório de paragem para qualquer anónimo caminhante. Público maioritariamente acidental, como convém a uma performance de choque.

Ó Édipos! invade o largo com actores escondidos sob máscaras brancas, frases provocatórias suspensas nos braços e um silêncio tão expressivo como o olhar. Há inquietação misturada com comentários de fuga emitidos por rapazes de garrafa de álcool na mão – o público, lá está. Os actores contorcem-se, num desmaio adiado, mesmo que já no chão.

Sófocles ou Freud? Édipo, segundo um resumo preguiçoso: o filho apaixona-se pela mãe e mata o pai pelo mesmo motivo. Quando se apercebe que é por sua mãe que se apaixona, fura os olhos. Sua mãe suicida-se. Sófocles assassinado em duas linhas, portanto. Mas para quê recorrer a uma tragédia com tantos séculos de existência? Olhem para a minha tragédia! A pergunta vem de um elemento que atravessa o público de megafone na mão e, por momentos, confunde a audiência sobre a sua origem. Faz ou não parte da encenação? É que o homem, com problemas, muitos problemas, interrompe a actuação das máscaras, critica-as pela ousadia, porque no seu tempo o teatro era olhos nos olhos, sem máscaras nem subterfúgios, e só se cala quando é abraçado por todo o grupo. Dúvida dissipada: faz mesmo parte da peça.

«O que se esconde por detrás da nossa máscara social? Estaremos cegos para o nosso mundo interior? Como “abrir os olhos”, fechando-os?». Retirada do resumo da performance aí está a génese da fase seguinte do espectáculo. Os actores da dISPArteatro (do Instituto Superior de Psicologia Aplicada) vendam os olhos e avançam sobre o público, buscam-no por dentro. Quer conhecer-se melhor?, perguntam enquanto oferecem vendas. (nota: oferecer vendas nem nos sonhos é comércio)

É interventiva, sim senhor. E faz pensar. Olhem só do que se foram lembrar: fazer pensar. A nossa tragédia quotidiana tem outras seculares acumuladas ou é só mais uma birra pequenina? Seja como for, Ò Édipo! criou vontade de abraçar desconhecidos, o que já vale metade do abraço.

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