Archive for the ‘Peças na Politécnica’ Category

Os desesperados pensantes

Maio 29, 2007

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«- Como é que se arranca um cheiro?
– Despindo-o.
– Não posso, a minha nudez já é fatal».


Quinze pessoas em palco, sempre em palco, sem pano, sem cenas nem vírgulas. Ninguém entra e ninguém sai, porque o palco é um armazém.

Os quinze no armazém são portugueses que regressaram das ex-colónias. Um acontecimento real e luso é o barco da história do Armazém que o TEB, o grupo de teatro do Instituto Politécnico de Bragança, foi contar no FATAL na primeira vez que nele participou. Os personagens remexem nas muitas malas espalhadas pelo espaço fechado, procuram. É que perderam a bagagem, os filhos e o cheiro no confuso processo que os fez regressar.

«Era um mundo que se desmoronava, eram histórias de vida que ruíam e os protagonistas desta tragédia não sabiam se estavam no fim ou no início da História; sabiam-se, apenas, perdidos, com as suas vidas suspensas, reféns de um destino que não escolheram» dá o tom à sinopse.

Na encenação de Helena Genésio não há gritos. Ninguém se acende. Procuram, deambulam, trocam diálogos que nos prendem de bonitos, da autora Vânia Cosme. São desesperados pensantes, as personagens, reflectem fundo e poeticamente o seu desespero em belas metáforas. Sempre quase sussurrando, sempre tristes, sempre triste. As palavras a quebrarem em fragilidade no armazém.

Às vezes são todos iguais. Sentem e pensam e são só um. Dizem longas frases em coro. O andamento de toda a peça é lento e monótono, as frases mastigadas em leitura de salmo vincam o tom do princípio ao fim, mas que não maça porque o tempo da peça é curto. É uma injecção ou um guincho agudo, mas em grave.

«Em 1975, crianças ainda, vivemos juntas a experiência dramática do Armazém. Durante uma semana inteira procurámos, sozinhas, por entre milhares e milhares de malas, sacos e caixas, as duas malas da avó Joaninha. Nunca as tínhamos visto. Ao fim de oito dias conseguimos descobri-las através das etiquetas. Corria o mês de Outubro e o êxodo dos portugueses das ex-colónias estava a chegar ao fim… Desses dias terríveis apenas recordo o Armazém, o meu choro ininterrupto e o calor da mão da minha irmã a que eu me agarrava desesperadamente com medo de me perder».
Armazenado.

Para fazer serviço a Deus, E arrenegar o Diabo

Maio 27, 2007

 

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Como diz o povo «a água dorme de noite, não sendo bom bebê-la a não ser na noite de S.João». E é numa noite de S. João que tudo começa. Como o ciclo da água. Como o ciclo de uma estória. Num palco recheado de cores e gentes, o ambiente é de festa, banhada a gargalhadas e rodopios frenéticos. Um rapaz recebe as graças do baptismo pagão, enquanto cruza a fronteira entre o ser adolescente e a idade adulta. O divino vinho banha os corpos e as goelas sedentas, e a Cantiga dos bebedores embriaga os corações vadios. É uma autêntica farra dionisíaca do GEFAC – Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra – que incendeia todo o Teatro da Politécnica.

Empoleirados do lado direito do palco estão, de baixo para cima: uma violinista, quatro guitarristas, um acordeão, dois tambores e quatro cantoras. Todos rigorosa e coloridamente trajados como manda o folclórico figurino bem português, bem nosso. Elas: saias rodadas bordadas a flores, lencinhos na cabeça e socas por fora das meias rendadas. Eles: calça negra e camisa branca, colete preto e lenço ao pescoço. Mas os intrumentos, esses, vão variando numa miscelânea de sons bem familiares como o cavaquinho, a gaita de foles, o pandeiro, e mesmo aqueles que reproduzem a natureza como as conchas, a chuva, o chilrear dos pássaros. Ao lado, estende-se uma rede branca desde o tecto até ao chão, em jeito de tela, onde vão surgindo imagens de vídeo. Também é lá a divisória entre um plano frontal do representado e um outro imaginado, um véu fronteiriço entre a realidade e o sonho. Uma enorme variedade de elementos num espectáculo globalizante, que assenta não só na encenação da música popular portuguesa, mas no próprio sentimento e manifestações que provocaram o seu aparecimento, de Norte a Sul do país.

Mas voltemos à estória de A água dorme de noite. Depois do baptismo e de dançarem o Chote e cantarem Ó meu São João Baptista, o jovem delira nas angústias da vida. Minhas mãos molho, Minha cara lavo, Para fazer serviço a Deus, E arrenegar o Diabo… Minhas mãos molho, Minha cara lavo, Para fazer serviço a Deus e arrenegar o Diabo. Seres mascarados impulsionam o momento de divagação da noite. Mentes convulsas sofrem com o pesar do passado, as tentações do presente e as angústias do futuro. São João adormeceu. Mas o espectáculo decorre num ritmo circular e contínuo de alegria e tristeza, euforia e amargura, dia e noite, luz e treva.  As estórias jorram, como a água, como a música. Depois da noite vem o dia, e com o dia a labuta. Num momento extremamente bem conseguido, a tela exibe em “pormaior” uma senhora que caminha sobre uma grande roda de água. Com os pés duros, calejados, e uma doce face cansada de rugas. Minha roda está parada, e Ai ajuda-me, ó camarada. Sofremos. Penamos com ela. No campo, debaixo do sol ardente que queima os corpos trabalhadores, quais arados humanos, entre os homens acende-se o fogo da contrariedade. Porque o Homem é também capricho, orgulho, rivalidade, e das lutas da terra nascem as pequenas batalhas. Armados de chapéus floridos que as moçoilas criaram junto ao rio, os rapazes armam-se de paus e dançam as danças de Paulitos como Padre António e Sr.Mio. Clac! Clac! Clac! Clac!, é um ritmo frenético numa dança que parece mentira de tão coordenada.Clac! Clac! Clac! e o pés saltitam ao compasso dos tambores que rufam. E no meio da guerra que se tornou galhofa através da música, segue-se a calma, o cansaço… e o amor. Ele que chega intruso, não fosse ele o amor. Atrás do véu a sedução, e a preparação para o tão esperado encontro. Entre os pares que já bailam, o rapaz encontra a sua amada e oferece-lhe uma tímida flor. Ai que me dobraste o encanto! E todos dançavam, quando subitamente a música pára e os corpos unidos descendem, rendendo-se ao fogo da paixão. Rebolando (literalmente) sincronizados pelo chão, de súbito tudo o que se vê são Saias e uma Chula Passada bem ao sabor minhoto. A noite começa então a suspirar ao sabor da chuva. E como eles a elas, o mar invade a terra, para do seu ventre brotarem novos frutos. Um véu branco desliza sobre os corpos que simulam as ondas.

Na tela lê-se: «Tudo dura o que duram os reflexos agitados. Só este rio imenso segue o seu curso inalterável e incessante para aquele mar profundo» (Raul Brandão, Os Pescadores)

 

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É de noite. E como o terminar de um ciclo não o seria sem ela, chega a insustentável Saudade. E a água, finalmente, adormeceu.

Os sete pecados sem texto

Maio 26, 2007

 

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Pegar nos sete pecados mortais e explorá-los em palco. Sem palavras, apenas quadros estéticos numa sequência de situações extremas. Encenado para adivinhar. Acordeão, sapatos vermelhos, tela com exibição de nuvens e de sombras, carícias-malícias, silêncio profundo, gritos histéricos, uma pitada de nudez. O homem, a mulher e o número sete que não os larga.

Um baú que serve para tudo. Até para as metáforas que lhe queiramos inventar. Plagiai foi apresentado TeatrUBI (grupo da Universidade de Beira Interior – Covilhã) e assumiu-se como performance contínua de pecados interligados. A ausência de texto intriga – estamos ou não preparados para aceitar um actor a comunicar sem recurso à palavra. António Abernú, encenador do quadro, explica em texto assinado: «O recurso a uma linguagem não verbal e à ausência de um texto levou todo o processo de criação a fortes incertezas sobre o que é o teatro ou do que se pode com ele fazer». É legítimo. Desta voz sincera sai a opinião que defende que este espectáculo só teria a ganhar com uma jorrada de texto bem construída. E, já agora, com menos minutos de um quadro que apresentava uma dança provocadora, a quatro, com línguas nos lábios e auto-carícias no corpo e música constrangedora de fundo (qualquer coisa ride me babe). Isso, como muito se vê entre vómitos nas discotecas da moda. Enfim, opiniões.

Depois há a interactividade tímida. Foi distribuído na bilheteira um papelinho onde cada espectador teria que escolher um dos sete pecados com o qual mais afinidades deveria ter. Resultados, lidos muito perto do final do espectáculo: 27 por cento inclinou-se para a luxúria, 21 para a gula e preguiça, 13 de arrogância, 9 de ira, 7 de avareza e 2 por cento de inveja. Mas, como todos os políticos muito bem nos ensinam, os números e as sondagens valem o que valem, deixemo-los respirar livremente e cada um que conclua o que quiser. Mea Culpa colectiva.

Ora, para além da ausência total de texto, será igualmente difícil encontrar em Plagiai uma narrativa lógica e assumida. Mais uma sequência experimental de quadros, exercícios de expressão dramática cozidos a agulha, novelo de pecados e tentativas falhadas de redenção. Para quê? Porquê? Ainda o encenador: pela «procura de sintetizar e criar uma essência para cada pecado, onde os espectadores se possam encontrar e, inconscientemente, fazer um julgamento de si dos outros». Que levante o dedo e a voz o primeiro que achar que tal empreitada não é legítima. Por aqui, consente-se.
Está encerrada a sessão.     

Quando a campainha toca é sempre alguém

Maio 25, 2007

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Brilhante, brilhante, brilhante. Aí fica o triângulo de adjectivo único. Raios partam os adjectivos e quem deles abusa! Havia vários apontamentos sobre a peça, escritos a caneta preta também no escuro mas não os consigo perceber. Mas contra sabotagens acidentais pode bem o teatro e uma peça como esta. A cantora careca, criação do delirante Eugène Inesco, apresentado pelos portuenses Máscara Solta (da Faculdade de Letras da Universidade do Porto) não precisa de cábulas para nada. É uma recriação muito próxima do irrepreensível.

Mas vamos lá ver se organizamos as ideias. O texto é absolutamente avassalador. Entre o surrealismo, a poesia e o humor sarcástico. Ridendo Castigat Mores – aquela coisa em latim para dizer que a rir se criticam os costumes. Voilá! Muito ao jeito de Boris Vian, mas diferente, diferente. A interpretação das personagens e  de situações caricatas foi aplicada com o nível ideal de extremo. Quase sempre no volume certo. Quando assim é, não há muito mais a dizer. Não há queixas, apenas um profundo agradecimento por nos dizerem assim um livro, mostrarem com competência o mundo interior de um autor.

Tudo começa com um quadro da Gioconda ou Mona Lisa ou La Joconde (aquela coisa numa tela de Da Vinci) iluminado numa parede. Depois a família Smith: um homem e três mulheres. A família Martin: um homem e quatro mulheres. A empregada doméstica. A Senhora Comandante dos Bombeiros. E uma cascata de situações ridículas todas passadas na sala de visitas dos Martin, «nos arredores do Londres» (dito com vaidade e sotaque very british). Foi escrito em 1954, ontem portanto: «as conversas cegas, as palavras ocas e doentes». Confirma-se, ontem.

«Por que é que na necrologia dizem sempre a idade dos falecidos e nunca dos recém-nascidos?». A empregada foi ao cinema. Os patrões reclamam. «-Mas foram vocês que me autorizaram! – Não foi de propósito». A campainha toca. Quatro vezes. Deve ser alguém. Não! Não era ninguém. Quando a campainha toca é sempre alguém. Não, quando campainha toca nunca é ninguém. Discussão filosófica da noite. A Senhora Comandante entra, faz umas gracinhas de circo, posa para a fotografia, tão engraçada que ela é. Mas é assunto sério que a leva lá, lembra-se meia hora depois: Há fogo nesta casa. Não, não há. Nem um bocadinho? Não. É pena. Pois é, isto anda mau para todos. Tem consciência social a Senhora: «Os naturalizados têm direito a casas mas não a que lhe extingamos o fogo se elas começarem a arder». É bonito.

A cantora careca é uma prisão. Um vício. Não devia ter fim. Desconfio que o autor tenha deixado a última página em branco, por esse mesmo motivo. E talvez por isso a opção da Máscara Solta para a cena final tenha sido tão estranha. Um caos de dança em palco, com cada um dos autores a aproximar-se do público, à vez, e soltar a primeira frase oca que lhe vem à cabeça. De improviso, acredito. Deixem-me acreditar porque assim é mais bonito. Os fins das coisas são sempre difíceis. Não há fórmulas. Sei lá. E este foi estranho. Ainda mais depois de uma peça… qual era mesmo a base do triângulo?… isso, brilhante.
A propósito dessa questão, ou ampliando-a ainda mais, José Luís Costa, actor principal da peça Silêncio (pelo Teatro Universitário do Minho) já me tinha deixado um segredo. Que me perdoe por agora o tornar público. Mas é demasiado bonito para que não seja partilhado: «Se o primeiro espectáculo é como dar à luz, o último é como perder um filho».

Fica pelo menos a última frase com que se despediram os actores da Máscara Solta: «Não é por ali. É por aqui».

Eugène Ionesco

Como resistir a um Clássico?

Maio 24, 2007

 

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Primeiro impacto: o fascínio pela máscara. Clássica, contemporânea, criada sem qualquer tipo de preocupação com esses conceitos estéticos? Não interessa. É um objecto total. Arte em palco, na rua, onde quer que a máscara esteja. Mistério, atracção, fascínio. Segundo impacto: o quadro estático a gerar impaciência com que a peça começa. Contudo, as máscaras. Um deus ou homem no chão, amarrado pelos pés. E as máscaras são um coro a tempo inteiro.

Oedipus e a tragédia com 2400 anos, é Sófocles. Oedipus pelo trabalho dos mesmos criadores de Ó Édipos, performance também já aqui referenciada. Os actores do dISPArteatro (do Instituto Superior de Psicologia Aplicada) aproveitam a estética desse trabalho e acrescentam-lhe texto e diálogo clássico vindos directamente da pena do autor (e subsequentes tradutores e adaptadores) grego. E aí começam os problemas. Ai desgraçado Édipo!

Se a encenação e o conceito são dignos do mais sincero dos aplausos, já o resto deixa muito, tudo, quase tanto como o tudo, a desejar. Os jovens futuro psicólogos não resistiram à narrativa floreada de Sófocles, aos exigentes e extenuantes diálogos, e apresentaram uma versão quase imperceptível, por trapalhona, por muito pouca preparação, das palavras daquele que é «um dos maiores intelectuais da antiguidade clássica». É o risco dos clássicos: ou são irrepreensivelmente interpretados ou espalham o desconforto pelas cadeiras de quem os vê. dISPAteatro afogou-se no texto para nunca mais respirar. As palavras, ensopadas, sentiam-se mal e semeavam o mal-estar de quem não percebe. E, mesmo para quem não conhecia ainda a tragédia, para os optimistas que viam no texto mais uma missão de curiosidade que de exigência, o eco que lhes chega será sempre traumático.

«Que algum socorro nos alcance». E foi mesmo uma pena. Porque toda a estratégica cénica estava preparada para funcionar com elevados níveis de eficácia. As máscaras, uma vez mais, as trocas de figurino em pleno palco quase com uma invisibilidade tal que o público nem se apercebia, o constante jogo físico entre o coro e as personagens mais importantes à volta de Édipo, a sonoplastia reduzida ao mínimo e ao útil. Uma pena, com uma credível sensação na ponta que, com mais alguns meses de trabalho em volta do texto e da melhor forma de o dizer (nota da redacção: e a ler Sinisterra), o resultado final a apresentar poderia chegar a níveis muito interessantes.

Para todo o efeito, fica a reflexão interior de uma das mais intensas tragédias da história da arte dos palcos. E, sendo teatro, também é psicologia o que aconteceu na noite de 23 de Maio, no Teatro da Politécnica. Por exemplo: «a vertente centrada no indivíduo, no processo de auto-descoberta, no “conhecer-te a ti mesmo” escrito no tempo de Delphos», a «busca da verdadeira identidade», «a incapacidade do homem contemporâneo de ver e compreender os factos que o levaram a situações dramáticas». Tudo reflexões inerentes à tragédia, assumidas frontalmente pelos intervenientes da peça.

E por isso as máscaras. E por isso o arrancar das máscaras e o vendar os olhos, metáfora perfeita, depois de perceberem que Édipo arrancara os seus. E a fortíssima imagem da máscaras abandonados no chão. A caminhar sem ver, em busca interior.
Impacto último: um final irrepreensível que pede um desconto de tempo para meditação. Objectivo atingido, sobretudo para quem não é muito exigente com a técnica e não se importa de não perceber alguns diálogos. Mas, sim, objectivo atingido. E, sim, o abraço de Ó Édipos, em pleno Largo Camões, a um suposto anónimo que sofre é muito mais terapêutico para os sentidos, que um abraço em palco a um Édipo distante que arrancou os olhos há mais de dois mil anos.

«Se dormisse, talvez eu amasse…»

Maio 23, 2007

 

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Deviam ser 21h30, mas o relógio de pulso dizia enervado e a suar que as 22h30 já lá estavam no monte de gente que se acumulou para ver a peça que estava atrasada. Parecia o fim. Mas a partida para os bancos da plateia ainda nem começara. Fim de partida, chamava-se a peça. Grupo NEXT, da Faculdade de Belas Artes de Lisboa assumiu o palco. «Parece que é de Beckett e foi traduzida do original francês para o castelhano por Ana Moura Moix», diz o rapaz que lê a sinopse em voz alta pela pelo menos terceira vez. E finalmente, ao 44º empurrão e à aparição das primeiras bifanas no pão para os que tinham jantado cedo e enganavam os nervos com carne, entra tudo para a sala preta da tela preta. (O ‘finalmente’ sai com um alívio desesperante).

O cheiro a remédios e a música alta que soa a uma mistura inexplicável de metralhadora + banda sonora de filme de ficção científica + broca de dentista dão início às primeiras alucinações por parte dos espectadores que apreciam a Unidade de Terapia Intensiva (UTI). É a autêntica consulta colectiva. O desespero da gente sentada, da gente deitada, da gente cansada de esperar pelos sonâmbulos verdes que aparecem do outro lado da sala a um conta gotas interminável de silêncio. São eles sonâmbulos de bata verde e máscaras de gás: guerreiros duma vida telecomandada à dezena. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10 doentes da vida moderna sentados num ambiente à Admirável mundo novo do Aldous Huxley. E o homem morto jaz ali no meio. Nu. Inocentemente nu e com um farrapo vermelho na mão, legado dos vermes que o esperam amanhã na terra. E pendem do céu negro de tecto-de-teatro garrafas com líquido às cores, cujos tubos invadem o corpo do homem. Daquele homem. O homem que sofre paranoicamente deitado, títere duns tubos que já não o deixam urinar de pé, para mostrar que é um homem, caramba.

É a paciência de Job começar a ser testada pelas cadeiras que não param quietas, é o ‘não se aguenta’ e é o homem que geme furiosamente com versos de raiva que leu nos livros de quando era menino (e urinava de pé) e sonhava com os sonhos. E sim, só aquele homem é que fala. Diz que «a Internet é que liga o mundo, mas na África as mortes continuam a acontecer». Teatro-monólogo sem fim à vista que diz coisas às vezes mágicas com gritos de mulher a parir. Incomoda? Sim, muito. E o homem que não se cala diz uma coisa que faz esquecer que a peça está a ser um sufoco, pergunta se «duvidamos dos olhos azuis de Cristo». Não sei. Duvidamos?

O som de fundo que agora se parece a um martelo pneumático no máximo já não é suportado por nenhum ouvido humanamente normal, porque causa tremores a caminho do tímpano. (Mas por que é que a plateia está cheia de gente a ver isto?). É o quase a A aula de anatomia de Rembrandt, mas não está lá nenhuma aula de anatomia. Mas é o quase. E o Homem tenta mexer-se, mas só mexe tubos e diz que «isto é o fim, isto vai acabar», que no fundo é o que algum-muito público quer há já uma hora atrás, porque já é impossível conseguir ver aquele homem rodeado de seres verdes, inertes e mudos. «Já são horas de que isto acabe», sugere, enquanto quer morrer e não o deixam, quer dormir e não o deixam… «Se dormisse, talvez eu amasse. Íamos atrás dos nossos desejos perdidos». E o comando piolhoso que causa comichão de choques interrompe-lhe uma bonita frase que diz que «Há um coração de sangue vermelho na minha cabeça cega». Mas o que o homem quer e repete bem alto e bem furioso é que tem «vontade de fazer xixi». Tem, mas não pode, porque o tubo suga-lhe todos os líquidos da essência da vida. E ele sonha com o maior desses líquidos, o mar. E quer «partir só a caminho do mar», mas fica perturbado e nunca se cala, nem o barulho se cala, nem as pessoas se calam, nem o escuro se cala quando deixa o homem cego ver que um dia todos seremos como ele.

Reza-se o Pai Nosso. (Sim, já nem o mais santo aguenta dentro da sala.) De repente ficamos todos às escuras e é a gota-de-água da fúria contra o homem que nos causa tanta fúria, mas de quem partilhamos essa fúria e não sabemos. Mas vá lá, ele perdoa-nos e cospe bem alto «Fim da palhaçada» – o que para a assistência das 00h02 quis dizer Fim.

(Irritou-irritou-irritou-irritou-irritou-se muito? Então, parabéns, por ter compreendido a peça).

A imaginação, a verdade: teatro

Maio 23, 2007

 

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Aí está a peça chave da edição deste ano do FATAL. Enquanto todos arriscam, de extremo em extremo, de dúvida em decisão, Pervertimento apresenta uma profunda e bem sustentada reflexão sobre as mais pertinentes questões que rodeiam o mundo teatro. José Sanchis Sinisterra, o valenciano, é autor do magnífico texto apresentado pelo grupo CENAtÓRIO«a meta-análise do teatro». Semiótica pura sobre as artes de palco. Encenação coerente e envolvente.

Então começa assim: no centro do palco despido, uma caixa de luz – «uma caixa mágica que abre um espaço numa nova dimensão». Nada mais. Suficiente para sonhar, imaginar, pensar. E a constante provocação e confrontação do papel do público: «Se fosse aos senhores eu protestava. Trazê-los para aqui para ver isto?»; o que realmente acontece de interessante não se passa em palco, mas ali ao lado, diz um dos actores.
Antes disso. Dois actores encontram finalmente a caixa, glorioso diálogo de abertura. O que é agora sempre esteve aqui? Para que serve agora? «- Já não te interessa? – Não.
– Depois de tanta procura? – Precisamente»
.

O actor está dentro da personagem. A personagem está dentro do texto. O texto vem de dentro do autor. O autor é uma personagem que escreve dentro de uma pessoa. Antes e depois do ciclo, entremeado, nas extremidades, o teatro. É bom pensar globalmente.
«Uma mulher e um homem, frente a frente, em silêncio. Isto sim é teatro!» ou «No teatro tudo é uma questão de imaginação» ou «No teatro tudo é uma questão de verdade» e «Nada de acções fáceis. Alto!».

A encenação, com ou sem caixa no meio, é um magnífico exercício de descontinuidade. Fragmentos contínuos, entenda-se. Ou, como os próprios responsáveis explicam, «um espectáculo compartimentalizado em cenas/sketches». Silêncios nos lugares certos, texto a respirar com precisão na maior parte do tempo, presença física forte, nos gestos, nos olhos. Momento de verdade, comprova-se. A imaginação. O gelo e o fogo. Peça-chave porque total. À luz da proposta, era muito difícil fazê-la ir mais longe. Se é certo que nem tudo é uma questão de distâncias, também o é que a ordem natural das coisas foi pensada para desaguar em destino seguro. Assim foi. 

E o que acontece quando um actor descobre que o texto que diz, e diz sentir, e diz assumir, não é seu? «Enoja-me abrir a boca sabendo que nada do que digo sou eu quem o diz». Quem diz tudo é o autor, diz um actor inteligente. Até isto que diz agora. Até o que fica por dizer. O actor não diz nada. E «se nos calarmos, também será dele este silêncio nosso». Tramado descobri-lo em palco. Autor sádico a brincar às marionetas com os actores.

E o que acontece quando uma personagem se recusa a sair do palco na cena final com o corpo de autor. E reflecte sobre o que lhe vai acontecer depois de cair o pano. Actor vangloriado, aplaudido e personagem a apanhar pó e teias de aranha. «O actor é o actor, eu sou eu», diz a personagem. Não tem nada contra o primeiro, mas por favor pensem um bocadinho no segundo, por uns minutos.

E agora sim, omitidas outras cenas da peça, o teatro também pode ser a arte da omissão, podemos ver o pano cair com tranquilidade. Aplaudir porque é normal aplaudir no final, sabe bem como o espreguiçar, descarga a consciência também. E uma inequívoca sensação no final do espectáculo: esta noite o público foi respeitado. E terminar o texto com uma elucidativa explicação dada pelos intervenientes do CENAtÓRIO:
«O teatro é feito para os outros, ultrapassa os limites masturbatórios dos “artistas”, e obriga-nos a um altruísmo que provavelmente não será mais que o entendimento da comunicação como o processo de chegar ao público».

 
Sinisterra (wikipedia)

Não há comando que plante pérolas

Maio 21, 2007

 

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Não há que enganar o prezado leitor – nem com meias palavras, nem com declarações finais, às quais de resto poucos chegam. O RASCUNHO tem estreitas e queridas relações de profunda amizade com elementos do Teatro Universitário do Minho – outras ainda recentemente plantadas e a crescer. O RASCUNHO assistiu à génese d’O Silêncio, às primeiras tentativas de o levar a palco, trabalhou de perto com o autor, João Negreiros, e ajudou na construção de legos que foi montar o cenário no Teatro da Politécnica, em Lisboa, e voltou ao serviço no final, para o desmontar e levar para casa. O RASCUNHO madrugou, viajou, almoçou, sorriu, abraçou, suou e dormiu com O Silêncio. Posto isto, sim, podemos descansar: O Silêncio é uma obra excelente.

Obra: texto, encenação, interpretação, cenografia, verosimilhança. O ponto de partida é seco: «Esta vida tem que ir para arranjar. Faz barulhos por todo o lado». O grifo é de Aline (Cátia Cunha e Silva), «uma menina com problemas», personagem última, razão primordial da trama. Uma menina que não suporta os barulhos quotidianos – o ladrar do cão, o pingar do aquecedor a óleo, o fechar das persianas (mantém o sol sempre apagado), os chocolates demasiado crocantes… Personagem de fina porcelana – encantadora, volátil, inconformada, insubstituível (na mesura das coisas).

Mas os focos incidem sobre Alípio (José Luís Costa), possível sogro de Aline, e em quem recai toda a sátira aos cidadãos resignados, frustrados pelas vidas que permaneceram desgostosamente por viver, uma terra dos sonhos nunca cumprida, um paraíso do deus-amor-pelas-coisas inatingível. O homem dos infernos no bolso, à volta, no coração. Um homem sem brilho, sem olhos, sem verde. Tudo isto embutido numa personagem brejeira, chegada em bruto das tascas nortenhas: um homem de família, de dinheiro e de putas.

O elenco feito quadrado encerra com o filho bastardo de Alípio, Artur (Benjamim Vaz), um jovem e negligente rockeiro, namorado de Aline; e uma «puta velha», Aurora (Sara Costa), amante paga de Alípio, que sonha com o dia em que o seu príncipe encantado chegará num cavalo branco, empunhando um ramo de rosas vermelhas.

Os twists do texto não teriam a mesma piada escritos por quem se limita a apaixonar-se por esta ou aquela personagem, por este ou aquele tormento, este ou aquele ensejo. Interessa, sim, o paradigma do teatro: é o palco que nos mexe no coração como em água. É no desespero grotesco das crianças incumpridas que se encaixa a grande aprendizagem dos dias que sangram. É nas lágrimas exasperadas, contundentes, dissimuladas no ridículo das personagens, escondidas nas gargalhadas maviosas. Vidas feitas pontos finais, amores desesperados, inacabados, mergulhados no mais maduro vinho das trevas. A ensombrarão do que poderia ser. E a saudade.

É esta a terceira vez em que o RASCUNHO teve oportunidade de ver O Silêncio. Os sentimentos, as gargalhadas, as convulsões internas mudam daqui para ali. Um espectáculo sempre novo. Pequenos pormenores. Grandes descobertas. Mais a cumplicidade impossível de afastar. E quando se reza, é porque se acredita.
Resta uma palavra de apreço ao autor, que se faz aqui valer a par de nomes como Boris Vian ou Anton Tchékhov.

«Quem é que nunca teve medo de ficar sozinho?»

Maio 20, 2007

 

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E mais uma vez, por fatalidade, estamos lá todos, senhor espectador: a solitária que deixou a noite passada a chorar em casa, o que trouxe a namorada para não estarem sempre a ir os dois ao cinema, o amigo do curso, o amigo do actor, o amigo da actriz, os amigos a quem o amigo não se sabe de quem ofereceu convites para o espectáculo. São todos eles corpos presentes à espera de passar a noite e passar a vida numa sala de teatro, deixando por arrumar o resto da vida no resto dos dias por engavetar. E lá salta ela, a rapariga de preto que incomoda como o foco de luz que lhe arregala os olhos. Incomoda e faz o público mexer-se da cadeira com as perguntas indecentes que fazem tossir e coçar a cabeça aos anónimos das filas da frente, que são os primeiros a ouvir a rapariga das perguntas incomodativas que não deixa a peça começar e atira de braços esticados um «Quem é que nunca teve medo de ficar sozinho?» e um outro «Quem é que nunca fez sofrer ninguém?». E a mulher dos óculos deixa sair o primeiro arrepio das calças de ganga, porque já era tempo de alguém da plateia admitir que estávamos todos num cemitério. A culpa, essa, era da «experiência diabólica da vida», que nos saúda ainda em fraldas com um Até sempre servido em bandeja iluminada por velas vermelhas de dia de Todos os santos

Do lado direito da outra vez plateia brilha um abraço mais forte que faz a escuridão tremer. Porque a morte aparece aos pares, senhor espectador. Os acidentes de carro, os ataques de coração, as lâminas de barbear nos pulsos desistentes, as balas de crânio e a inexorável velhice levam sempre uma mão cheia de gente decepada na foice. Alegoria da cultura da morte escondida no campo dos vivos. Sementeira cruel com chuva sempre abundante.

Dois irmãos coveiros comentam o caso insólito da rapariga que morre e não tem ninguém no funeral que deite baba e ranho por ela, talvez porque seja emigrante ou sem-abrigo. Mas não, era Amélia, de seu nome. E Amélia ficou farta da vida, das pessoas, de ser chata e repetitiva, de ter uma família normal como as outras que dança a Cabritinha do Quim Barreiros e faz questão de anunciar quem se casa, quem vai ser mãe, quem conseguiu entrar para a Universidade, quem arranjou emprego, quem completa mais um aniversário… Fenómenos ridículos da existência para quem passa o tempo à espera de morrer, à espera de que chegue o golo do Ricardo no Europeu de 2004, sem luvas, sem o aviso prévio de que estamos todos a meio de um jogo, senhor espectador, e os cachecóis vão sair do armário com naftalina para sugar as lágrimas escorregadias. Cuidado.

Intervalo a preto sem holofotes acesos. O resultado ainda é indefinido e os primeiros comentadores a anteciparem o final da partida são os The Doors, que saem das colunas invisíveis e projectam o implacável This is the end…. Mas para quem é coveiro, o fim está ainda mais perto, porque esse fim aparece ao espelho todos os dias com uma cara nova de caixão, como a de Amélia. A Amélia que deixa um CD, uma carta e um relógio e decide embarcar no além, porque afinal o tempo urge e a herança da morte deixada pelos pais aproxima-se numa diminuição apressada de segundos que não dá tempo ao amor de beijar as horas. E se de repente o amor não tem tempo de viver e nasce num coração de morta? E se o rapaz coveiro, Carlos, de repente gosta de Amélia? A doce Amélia, a linda Amélia, a Amélia que não fala de mais, a Amélia que não chateia, a Amélia que não gasta dinheiro em perfumes, a Amélia que não muda o canal do futebol para ver a novela, a Amélia que ainda por cima parece que era enfermeira ou médica, uma profissão de prestígio que vive para a vida, porque «Desculpe, mas a vida não espera!», em suma: a perfeita Amélia, senhor espectador. E já estamos na segunda parte e parece que Portugal vai mesmo à final do Europeu. E as pessoas continuam a morrer, porque os coveiros também precisam de ganhar a vida, não é Carlos? E o que é que tu viste numa morta que nunca viste, Carlos? Parece que nada, Carlos. E o teu nada é o suficiente para a amares. Para dizeres à namorada Elisa um «Eu gosto de outra mulher», que por acaso está morta, Carlos. E o desejo de um corpo nu não te chega para iludir a santidade da morta que te aumenta o desejo, porque te é inatingível, ó Carlos.

Mas fazemos assim: se Portugal ganhar à Grécia, ganha a Amélia os três pontos, se Portugal perder a final, então Carlos ficará também perdido num coração que dorme debaixo da terra e que cujas raízes nem as quiromantes podem encontrar na palma da mão. Porque o amor é mesmo assim, não há nada a fazer: é misterioso, macabro e acima de tudo piroso como um urso de peluche que diz I love you no dia dos namorados, não é, senhor espectador? Mas mesmo que Portugal perca 1-0 com a Grécia e Carlos prefira a defunta Amélia, se a mesma Amélia estiver afinal viva e for a empregada da limpeza que quis experimentar morrer estando viva, então Carlos volta para Elisa – táctica de jogo imprevista por falcatrua da equipa adversária. E o Barco Negro – «Eu sei, meu amor, que nem chegaste a partir… » da grande Amália faz todo o sentido com um lenço. E todas as elas do mundo vão continuar a pentear os cabelos e a apertarem os vestidos para que todos os eles do mundo as achem bonitas antes de estarem esticadas numa capela mortuária. E assim, com a morta do enredo a ficar viva, a viva que estava morta ressuscita e a vida prossegue com vivos e mortos e mortos-vivos num argumento que é «Como uma força que ninguém pode parar» com sotaque à Nelly Furtado.

(Mas parece que a verdadeira Amélia estava mesmo morta e a estória da empregada da limpeza era uma farsa de Elisa para afastar os instintos quase necrófilos do namorado Carlos… Mas não diga nada, senhor espectador, não se esqueça que também faz parte dos corpos presentes da mentira da vida… E essa vida urge desavergonhadamente enquanto coça a cabeça: tic-tac, tic-tac, tic-tac…)

Corpo presente é o 7º trabalho da autoria de Lara Morgado, Licenciada em Psicologia pela faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto e fundadora do grupo de teatro universitário X-ACto. A peça Corpo presente representada no Teatro da Politécnica contou com a interpretação de Carolina, Daniel Figueiredo, Gisela Borges, Isabel, Joana Serra, Liliana Ribeiro, Raquel Marques, Raquel Teixeira, Rita d’Aires, Sara Silva, Sérgio Rocha, Sérgio saraiva e Sofia.

A revista-não-revista

Maio 18, 2007

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Procura-se
uma peça que quase quase possa ser revista portuguesa. Mas revista portuguesa de inspiração russa. Revista portuguesa da que cheira a Lisboa e a Trás-os-Montes e a Moscovo. Revista portuguesa parida das linhas de um genial Anton Tchékhov e pronta para aterrar nos palcos ‘suburbanos’ do Tejo. Bons vícios literários têm estas companhias de teatro universitárias. Na quarta-feira, Boris Vian arrancou corações com as mãos do Técnico. Ontem, Tchékhov escarneceu Lisboa pela boca da Lusíada.«Quatro peças, em quatro actos, que mostram a vida do ser humano, do ser social, correcto e educado», conta a sinopse da peça. E, já no escuro da sala, há cadeiras que se agarram à voz que anuncia e adverte e sobe panos imaginários que não precisam cair. Sobe. E Começa.

Monólogo. Não é fácil e atiram-te assim, sozinha, caras de público desconfiado e exigente. Não ceder. Arregaçar mangas, limar trejeitos e atacar. Que «vossas excelências saberão com certeza dos malefícios do tabaco» e de triliões de outras coisas que compõem os dias de mulheres submissas e maridos tiranos. Idiossincrasias e tiques nervosos aos gritos no Teatro da Politécnica, expressividade magistral, domínio. E os rostos que se abrem em sorrisos. Finalmente. Fácil? Quem disse que era fácil domar plateias mentiu.

Take 2. E o melhor da peça a nascer do cenário geometricamente alterável por saltimbancos alegres. Músicas a lembrar pradarias do Lousiana. Wayne, és tu? Não. É a portugalidade a marcar pontos, são «animais sociais num permanente auto-controlo falível e que acaba por se denunciar». São animais. Como nós.
O pai bêbado, a filha expedita e o candidato a noivo ensimesmado mas agreste. Rir, rir muito, que a entrada, já se sabia, fora proibida a quem não guardasse gargalhadas de algibeira. Gozar as disputas irrisórias que corroem o azul do quotidiano «e tudo mais». E o que é que isso interessa «e tudo mais»? «Vocês casem-se mas é já e desamparem-me a loja e… tudo mais!», que não há pai que aguente. Sala rendida. A noite estava ganha.

Terceira e quarta partes de «Precisa-se». «A frustração, a raiva, a inveja, a tristeza, o desejo, o amor – um rodopio de sentimentos camuflados no quotidiano». E segue a ode do Grupo de Teatro da Universidade Lusíada (GTUL) ao mestre das histórias pequenas, ao senhor conto: Tchékhov.
Trágico à Força é a história de uma mulher sôfrega de tanto não-viver, de carregar, literalmente, o peso da vida. As convenções e as rotinas na génese de uma insanidade que acaba com «sede de sangue».
A fechar, O urso. A filha desgarrada do segundo acto pinta a alma de um luto bem sensual e chora o marido. Depois, a estória – que mete homem – é a das coisas previsíveis, adivinháveis. Da aspereza à doçura, da carência do toque às saias que se levantam quando corre o vento das vontades carnais. Dos amigos do amor.

O terceiro ano do GTUL no palco mais Fatal(ista) de Lisboa foi um bicho a roubar oxigénio às árvores do Botânico, a dar respiros aos que ontem escolheram os caminhos da Politécnica. Convenceu(-me).