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Segunda Chamada para o Passatempo

Maio 29, 2007

O RASCUNHO ainda tem para oferecer aos leitores alguns dos 15 convites duplos disponibilizados para a Festa de Encerramento do FATAL. Para os conseguirem basta que respondam acertadamente à seguinte questão (enviando a resposta para o mail de serviço da nossa cobertura do Festival: rascunhonofatal@gmail.com):

A peça Corpo presente foi interpretada pelo grupo portuense X-Acto. O texto e a encenação foram assinados por uma jovem dramaturga nortenha. Como se chama?

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Os sete pecados sem texto

Maio 26, 2007

 

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Pegar nos sete pecados mortais e explorá-los em palco. Sem palavras, apenas quadros estéticos numa sequência de situações extremas. Encenado para adivinhar. Acordeão, sapatos vermelhos, tela com exibição de nuvens e de sombras, carícias-malícias, silêncio profundo, gritos histéricos, uma pitada de nudez. O homem, a mulher e o número sete que não os larga.

Um baú que serve para tudo. Até para as metáforas que lhe queiramos inventar. Plagiai foi apresentado TeatrUBI (grupo da Universidade de Beira Interior – Covilhã) e assumiu-se como performance contínua de pecados interligados. A ausência de texto intriga – estamos ou não preparados para aceitar um actor a comunicar sem recurso à palavra. António Abernú, encenador do quadro, explica em texto assinado: «O recurso a uma linguagem não verbal e à ausência de um texto levou todo o processo de criação a fortes incertezas sobre o que é o teatro ou do que se pode com ele fazer». É legítimo. Desta voz sincera sai a opinião que defende que este espectáculo só teria a ganhar com uma jorrada de texto bem construída. E, já agora, com menos minutos de um quadro que apresentava uma dança provocadora, a quatro, com línguas nos lábios e auto-carícias no corpo e música constrangedora de fundo (qualquer coisa ride me babe). Isso, como muito se vê entre vómitos nas discotecas da moda. Enfim, opiniões.

Depois há a interactividade tímida. Foi distribuído na bilheteira um papelinho onde cada espectador teria que escolher um dos sete pecados com o qual mais afinidades deveria ter. Resultados, lidos muito perto do final do espectáculo: 27 por cento inclinou-se para a luxúria, 21 para a gula e preguiça, 13 de arrogância, 9 de ira, 7 de avareza e 2 por cento de inveja. Mas, como todos os políticos muito bem nos ensinam, os números e as sondagens valem o que valem, deixemo-los respirar livremente e cada um que conclua o que quiser. Mea Culpa colectiva.

Ora, para além da ausência total de texto, será igualmente difícil encontrar em Plagiai uma narrativa lógica e assumida. Mais uma sequência experimental de quadros, exercícios de expressão dramática cozidos a agulha, novelo de pecados e tentativas falhadas de redenção. Para quê? Porquê? Ainda o encenador: pela «procura de sintetizar e criar uma essência para cada pecado, onde os espectadores se possam encontrar e, inconscientemente, fazer um julgamento de si dos outros». Que levante o dedo e a voz o primeiro que achar que tal empreitada não é legítima. Por aqui, consente-se.
Está encerrada a sessão.     

Passatempo

Maio 26, 2007

O RASCUNHO tem para oferecer aos leitores 15 convites duplos para a Festa de Encerramento do FATAL. Para os conseguirem basta que respondam acertadamente à seguinte questão (enviando a resposta para o mail de serviço da nossa cobertura do Festival: rascunhonofatal@gmail.com):

A peça Corpo presente foi interpretada pelo grupo portuense X-Acto. O texto e a encenação foram assinados por uma jovem dramaturga nortenha. Como se chama?

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Programa da Festa Fatal – Sexta-Feira, 1 de Junho, Santiago Alquimista (Lisboa):

 

22h: Cerimónia de Entrega de Prémios
24h: Festa com Les Patis (Dj & Vj) e NuCIvo (programação vídeo)

 

Preços: 4 euros (Locais de venda: Reitoria da Universidade de Lisboa, Nas Associações de Estudantes aderentes)

ou 5 euros no Santiago Alquimista no dia 1 de Junho.

 

Sítio Oficial do FATAL

Quando a campainha toca é sempre alguém

Maio 25, 2007

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Brilhante, brilhante, brilhante. Aí fica o triângulo de adjectivo único. Raios partam os adjectivos e quem deles abusa! Havia vários apontamentos sobre a peça, escritos a caneta preta também no escuro mas não os consigo perceber. Mas contra sabotagens acidentais pode bem o teatro e uma peça como esta. A cantora careca, criação do delirante Eugène Inesco, apresentado pelos portuenses Máscara Solta (da Faculdade de Letras da Universidade do Porto) não precisa de cábulas para nada. É uma recriação muito próxima do irrepreensível.

Mas vamos lá ver se organizamos as ideias. O texto é absolutamente avassalador. Entre o surrealismo, a poesia e o humor sarcástico. Ridendo Castigat Mores – aquela coisa em latim para dizer que a rir se criticam os costumes. Voilá! Muito ao jeito de Boris Vian, mas diferente, diferente. A interpretação das personagens e  de situações caricatas foi aplicada com o nível ideal de extremo. Quase sempre no volume certo. Quando assim é, não há muito mais a dizer. Não há queixas, apenas um profundo agradecimento por nos dizerem assim um livro, mostrarem com competência o mundo interior de um autor.

Tudo começa com um quadro da Gioconda ou Mona Lisa ou La Joconde (aquela coisa numa tela de Da Vinci) iluminado numa parede. Depois a família Smith: um homem e três mulheres. A família Martin: um homem e quatro mulheres. A empregada doméstica. A Senhora Comandante dos Bombeiros. E uma cascata de situações ridículas todas passadas na sala de visitas dos Martin, «nos arredores do Londres» (dito com vaidade e sotaque very british). Foi escrito em 1954, ontem portanto: «as conversas cegas, as palavras ocas e doentes». Confirma-se, ontem.

«Por que é que na necrologia dizem sempre a idade dos falecidos e nunca dos recém-nascidos?». A empregada foi ao cinema. Os patrões reclamam. «-Mas foram vocês que me autorizaram! – Não foi de propósito». A campainha toca. Quatro vezes. Deve ser alguém. Não! Não era ninguém. Quando a campainha toca é sempre alguém. Não, quando campainha toca nunca é ninguém. Discussão filosófica da noite. A Senhora Comandante entra, faz umas gracinhas de circo, posa para a fotografia, tão engraçada que ela é. Mas é assunto sério que a leva lá, lembra-se meia hora depois: Há fogo nesta casa. Não, não há. Nem um bocadinho? Não. É pena. Pois é, isto anda mau para todos. Tem consciência social a Senhora: «Os naturalizados têm direito a casas mas não a que lhe extingamos o fogo se elas começarem a arder». É bonito.

A cantora careca é uma prisão. Um vício. Não devia ter fim. Desconfio que o autor tenha deixado a última página em branco, por esse mesmo motivo. E talvez por isso a opção da Máscara Solta para a cena final tenha sido tão estranha. Um caos de dança em palco, com cada um dos autores a aproximar-se do público, à vez, e soltar a primeira frase oca que lhe vem à cabeça. De improviso, acredito. Deixem-me acreditar porque assim é mais bonito. Os fins das coisas são sempre difíceis. Não há fórmulas. Sei lá. E este foi estranho. Ainda mais depois de uma peça… qual era mesmo a base do triângulo?… isso, brilhante.
A propósito dessa questão, ou ampliando-a ainda mais, José Luís Costa, actor principal da peça Silêncio (pelo Teatro Universitário do Minho) já me tinha deixado um segredo. Que me perdoe por agora o tornar público. Mas é demasiado bonito para que não seja partilhado: «Se o primeiro espectáculo é como dar à luz, o último é como perder um filho».

Fica pelo menos a última frase com que se despediram os actores da Máscara Solta: «Não é por ali. É por aqui».

Eugène Ionesco

Não estamos sós

Maio 25, 2007

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A organização do FATAL disponibiliza também um blogue dedicado ao Festival. Chama-se Fatal nos Bastidores e apresenta, para já, um poderoso texto de Jorge de Sena acerca do teatro universitário.

Justifica atenção,
pode ainda vir a ser um foco fértil em interesse.

Como resistir a um Clássico?

Maio 24, 2007

 

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Primeiro impacto: o fascínio pela máscara. Clássica, contemporânea, criada sem qualquer tipo de preocupação com esses conceitos estéticos? Não interessa. É um objecto total. Arte em palco, na rua, onde quer que a máscara esteja. Mistério, atracção, fascínio. Segundo impacto: o quadro estático a gerar impaciência com que a peça começa. Contudo, as máscaras. Um deus ou homem no chão, amarrado pelos pés. E as máscaras são um coro a tempo inteiro.

Oedipus e a tragédia com 2400 anos, é Sófocles. Oedipus pelo trabalho dos mesmos criadores de Ó Édipos, performance também já aqui referenciada. Os actores do dISPArteatro (do Instituto Superior de Psicologia Aplicada) aproveitam a estética desse trabalho e acrescentam-lhe texto e diálogo clássico vindos directamente da pena do autor (e subsequentes tradutores e adaptadores) grego. E aí começam os problemas. Ai desgraçado Édipo!

Se a encenação e o conceito são dignos do mais sincero dos aplausos, já o resto deixa muito, tudo, quase tanto como o tudo, a desejar. Os jovens futuro psicólogos não resistiram à narrativa floreada de Sófocles, aos exigentes e extenuantes diálogos, e apresentaram uma versão quase imperceptível, por trapalhona, por muito pouca preparação, das palavras daquele que é «um dos maiores intelectuais da antiguidade clássica». É o risco dos clássicos: ou são irrepreensivelmente interpretados ou espalham o desconforto pelas cadeiras de quem os vê. dISPAteatro afogou-se no texto para nunca mais respirar. As palavras, ensopadas, sentiam-se mal e semeavam o mal-estar de quem não percebe. E, mesmo para quem não conhecia ainda a tragédia, para os optimistas que viam no texto mais uma missão de curiosidade que de exigência, o eco que lhes chega será sempre traumático.

«Que algum socorro nos alcance». E foi mesmo uma pena. Porque toda a estratégica cénica estava preparada para funcionar com elevados níveis de eficácia. As máscaras, uma vez mais, as trocas de figurino em pleno palco quase com uma invisibilidade tal que o público nem se apercebia, o constante jogo físico entre o coro e as personagens mais importantes à volta de Édipo, a sonoplastia reduzida ao mínimo e ao útil. Uma pena, com uma credível sensação na ponta que, com mais alguns meses de trabalho em volta do texto e da melhor forma de o dizer (nota da redacção: e a ler Sinisterra), o resultado final a apresentar poderia chegar a níveis muito interessantes.

Para todo o efeito, fica a reflexão interior de uma das mais intensas tragédias da história da arte dos palcos. E, sendo teatro, também é psicologia o que aconteceu na noite de 23 de Maio, no Teatro da Politécnica. Por exemplo: «a vertente centrada no indivíduo, no processo de auto-descoberta, no “conhecer-te a ti mesmo” escrito no tempo de Delphos», a «busca da verdadeira identidade», «a incapacidade do homem contemporâneo de ver e compreender os factos que o levaram a situações dramáticas». Tudo reflexões inerentes à tragédia, assumidas frontalmente pelos intervenientes da peça.

E por isso as máscaras. E por isso o arrancar das máscaras e o vendar os olhos, metáfora perfeita, depois de perceberem que Édipo arrancara os seus. E a fortíssima imagem da máscaras abandonados no chão. A caminhar sem ver, em busca interior.
Impacto último: um final irrepreensível que pede um desconto de tempo para meditação. Objectivo atingido, sobretudo para quem não é muito exigente com a técnica e não se importa de não perceber alguns diálogos. Mas, sim, objectivo atingido. E, sim, o abraço de Ó Édipos, em pleno Largo Camões, a um suposto anónimo que sofre é muito mais terapêutico para os sentidos, que um abraço em palco a um Édipo distante que arrancou os olhos há mais de dois mil anos.

A imaginação, a verdade: teatro

Maio 23, 2007

 

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Aí está a peça chave da edição deste ano do FATAL. Enquanto todos arriscam, de extremo em extremo, de dúvida em decisão, Pervertimento apresenta uma profunda e bem sustentada reflexão sobre as mais pertinentes questões que rodeiam o mundo teatro. José Sanchis Sinisterra, o valenciano, é autor do magnífico texto apresentado pelo grupo CENAtÓRIO«a meta-análise do teatro». Semiótica pura sobre as artes de palco. Encenação coerente e envolvente.

Então começa assim: no centro do palco despido, uma caixa de luz – «uma caixa mágica que abre um espaço numa nova dimensão». Nada mais. Suficiente para sonhar, imaginar, pensar. E a constante provocação e confrontação do papel do público: «Se fosse aos senhores eu protestava. Trazê-los para aqui para ver isto?»; o que realmente acontece de interessante não se passa em palco, mas ali ao lado, diz um dos actores.
Antes disso. Dois actores encontram finalmente a caixa, glorioso diálogo de abertura. O que é agora sempre esteve aqui? Para que serve agora? «- Já não te interessa? – Não.
– Depois de tanta procura? – Precisamente»
.

O actor está dentro da personagem. A personagem está dentro do texto. O texto vem de dentro do autor. O autor é uma personagem que escreve dentro de uma pessoa. Antes e depois do ciclo, entremeado, nas extremidades, o teatro. É bom pensar globalmente.
«Uma mulher e um homem, frente a frente, em silêncio. Isto sim é teatro!» ou «No teatro tudo é uma questão de imaginação» ou «No teatro tudo é uma questão de verdade» e «Nada de acções fáceis. Alto!».

A encenação, com ou sem caixa no meio, é um magnífico exercício de descontinuidade. Fragmentos contínuos, entenda-se. Ou, como os próprios responsáveis explicam, «um espectáculo compartimentalizado em cenas/sketches». Silêncios nos lugares certos, texto a respirar com precisão na maior parte do tempo, presença física forte, nos gestos, nos olhos. Momento de verdade, comprova-se. A imaginação. O gelo e o fogo. Peça-chave porque total. À luz da proposta, era muito difícil fazê-la ir mais longe. Se é certo que nem tudo é uma questão de distâncias, também o é que a ordem natural das coisas foi pensada para desaguar em destino seguro. Assim foi. 

E o que acontece quando um actor descobre que o texto que diz, e diz sentir, e diz assumir, não é seu? «Enoja-me abrir a boca sabendo que nada do que digo sou eu quem o diz». Quem diz tudo é o autor, diz um actor inteligente. Até isto que diz agora. Até o que fica por dizer. O actor não diz nada. E «se nos calarmos, também será dele este silêncio nosso». Tramado descobri-lo em palco. Autor sádico a brincar às marionetas com os actores.

E o que acontece quando uma personagem se recusa a sair do palco na cena final com o corpo de autor. E reflecte sobre o que lhe vai acontecer depois de cair o pano. Actor vangloriado, aplaudido e personagem a apanhar pó e teias de aranha. «O actor é o actor, eu sou eu», diz a personagem. Não tem nada contra o primeiro, mas por favor pensem um bocadinho no segundo, por uns minutos.

E agora sim, omitidas outras cenas da peça, o teatro também pode ser a arte da omissão, podemos ver o pano cair com tranquilidade. Aplaudir porque é normal aplaudir no final, sabe bem como o espreguiçar, descarga a consciência também. E uma inequívoca sensação no final do espectáculo: esta noite o público foi respeitado. E terminar o texto com uma elucidativa explicação dada pelos intervenientes do CENAtÓRIO:
«O teatro é feito para os outros, ultrapassa os limites masturbatórios dos “artistas”, e obriga-nos a um altruísmo que provavelmente não será mais que o entendimento da comunicação como o processo de chegar ao público».

 
Sinisterra (wikipedia)

«Um coração sem coração»

Maio 17, 2007

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Performance corajosa que não merece julgamento público. Ainda que mais estética e surreal, corações arrancados numa base física, visual, musical, de impacto de imagem. Ainda que menos literária, e como se sente a falta disso quando há o nome de Boris Vian rubricado em fundo. Quando há uma literatura tão única mas quase ausente na peça. Nada de julgamentos. Do actor, compositor, escritor, músico de jazz, trompetista – Vian – arrancaram-lhe o coração pelo aspecto absurdo, chocante, o extremo surreal. Opção clara por esse caminho. Uma quase total ausência de outros aspectos da sua escrita, aqui mais pornografia que literatura, mais penumbra que sagacidade. O abstracto divorciado da palavra, da construção textual de personagens. O fogo.

Em palco uma complexa trupe de personagens semi-nuas, ou nuas, mais tarde ou mais cedo, com maçãs no rosto, corações por todo o corpo, em todos os actos, o caos. Sustentado num intenso jogo musical, uma cortina sonora explorada pelos actores no microfone. Batidas cardíacas, gemidos, fragmentos de texto, sussurros, gritos. A estética. Uma performance de coreografia, personagens todas sempre em palco, mais de uma dezena, pálidas e mecânicas. [nota da redacção: alguns momentos passíveis de entrar em clips de Mechanical Animals, de Marilyn Manson]

«Ainda não encontrei um coração completamente estragado ou um coração intacto. Todo o coração está na mediocridade. E isso diverte-me». Humor subtil carregado de crítica social. Assim também é Boris Vian. Nada de julgamentos, nada de elogios excessivamente subjectivos. «Avisem todos que anda em liberdade um coração há mais de 24 horas», «as máquinas existem para podermos viver, não é para trabalhar». Aqui está ele.
Não se julga o que a sinopse da peça explica: «o texto de O arranca-corações foi escrito a partir de textos de Boris Vian, utilizados aqui para a construção da dramaturgia do espectáculo», vários textos; «fazer desaparecer os elementos estilizados para que apareça mais a realidade física»; «não queremos contar uma história, nem dizer os textos de Boris Vian, queremos mergulhar no seu imaginário, no imaginário dos seus textos»; «queremos mostrar o absurdo que os homens e as mulheres podem chegar a ser».

Bordel ou cena de filme de terror? A acção desenrola-se na penumbra de luzes tímidas, vermelhas, fracas, sacos de sangue pendurados no tecto, um ou outro banho despido, corações sem coração à espera de serem arrancados, o absurdo, o perverso, situações limite exploradas até à perturbação extrema, público contra a parede. E deus. «Deus está-se nas tintas para as ovelhas, deus quer cavalos de corrida».

O GTIST (Grupo de Teatro do Instuto Superior Técnico – Lisboa), vencedor do Prémio Fatal 2006 para o melhor espectáculo, arriscou uma apresentação contra a indiferença, contra os padrões. Nua, literal, perversa, nua. E corações por arrancar, corajosos, não devem ser julgados.
Aqui jaz um coração. Ou, alegando a biografia de Vian, aqui jazz um coração.

 

GTIST | Sinopse de O Arranca-corações| FATAL | Boris Vian

O outro lado da cortina

Maio 17, 2007

O RASCUNHO esteve momentaneamente em sério risco de não assistir à peça O Arranca Corações. Afastado progressiva e subtilmente da bilheteira por ansiedades alheias com vontade de reclamar seus bilhetes, reservas e afins, decidiu não se juntar à feira. Um caos. Nem fila, nem lógica. Mas, na parte boa, tanta gente interessada. Reservas que caducam, lista de espera activada, pouca compreensão e respeito por parte de alguns espectadores impacientes e indiferentes à ordem.
Assim custa ver, ainda mais quando se trata de adeptos de teatro, a quem se exije um nível de sensibilidade mais equilibrado.
O RASCUNHO entrou, sentado num canto escuro, no vão de escadas, entre as cadeiras e a parede. Uma sala saudavelmente cheia. Nada contra, é bom sentir a audiência viva e interessada.
Já para faltas de respeito, a receita interpretativa é bem diferente.

À mesa com assassinos

Maio 16, 2007

 

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«A vida é bela em Lisboa». A senhora morte atravessa a cidade de autocarro nas histórias de nove jovens. «A primeira pessoa que matei era…»: alguém ou ninguém, não importa, está morto.
Instantâneos da Morte viajou por muitas ideias antes de chegar ao texto final. Base sólida de Raul Brandão para o interior – «O meu primeiro impulso é destruir…», segunda estrutura basilar nos textos de Heiner Müller e tudo misturado com o improviso e experimentação textual vomitadas pela memória dos próprios actores. Construção, portanto. [nota da redacção: nada a ver e tudo relacionado com «Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago/ Dançou e gargalhou como se ouvisse música/ E tropeçou no céu como se fosse um bêbado/ E flutuou no ar como se fosse um pássaro/ E se acabou no chão feito pacote flácido/ Agonizou no meio do passeio público/ Morreu na contramão atrapalhando o tráfego», Construção; Chico Buarque (1971)].

Aparentemente não dói muito. Mata-se e já está. É a tradição europeia de escrever sobre a morte e o assassínio, diz a encenadora Joana Craveira. As referências estão lá, mas nunca no concreto. Lady McBeth, Hamlet, Jasão, Ofélia, alter egos da crueldade engolidos por episódios semi-biográficos dos autores. Estão porque tudo está, mas sem referências óbvias, o que até dá um certo mistério fragmentado à peça. «É como ler um livro», dizia no final Carlos Pimenta, um dos convidados para a tertúlia após o espectáculo. Assim é esta partilha de intimidade.
Os actores vão revivendo os percursos de infância num protegido e viciante exercício de partilha. O candeeiro partido, o taco de basebol, a caixa de chocolates, a caixa de sapatos para guardar tudo, a bomba de asma, as memórias da praia. Objectos nascidos da anunciada «participação do actor enquanto criador de materiais».

A autobiografia, o não arrependimento, o não assumir da culpa. A narrativa adquire um tom confessional que tranquiliza. Mesmo estando o público em frente a um potencial grupo de assassinos, tranquiliza. Mesmo aquando dos gritos: «A culpa morreu. Viva a revolução dos assassinos!». Ou quando se finge que se mata em palco ou as luzes se apagam ou os actores contam histórias ao ouvido de elementos da audiência.

Apresentada pelo grupo 2ª circular – Tearte (da Escola Superior de Comunicação Social do Instituto Politécnico de Lisboa), a peça dá total privilégio à palavra e, em certos momentos, assemelha-se a uma manta fragmentada de pequenos monólogos que se cruzam, pequenos solos de actores em palco sob consentimento dos outros que se sentam de olhar perdido. É quase sempre assim. Bem vistas as coisas, não podia ser de outra forma.

A entrada, com um exercício de dança ao som de uma música disco-metal-kuduro-mais-infinito faz temer o pior dos caos, a entrada num labirinto. Mas rapidamente pousa no texto. Com um recurso a desenhos e retroprojector, para melhor ilustração do seu percurso assassino, os actores assumem duas fases distintas da peça. A primeira, como confissão e explicação. A segunda, na parte final, absolutamente íntima. Cada actor levou consigo um grupo de espectadores para uma mesa, onde tem preparada uma pequena e reflexiva performance de pura partilha interior. É um risco de uma coragem admirável um actor expor-se interiormente com tanta intensidade. E por isso, também por isso, Instantâneos da Morte ultrapassou em muito as barreiras invisíveis do teatro.

«Apesar de tudo o enterro foi bonito». Eles contam, não se arrependem, não confessam que o fizeram. O texto é irrepetível. Em última análise, estão vivos.

Nota: No final da peça, uma tertúlia: Carlos Pimenta e Álvaro Correia foram os convidados especiais. Conversa interessante entre actores, encenadora, convidada e público sobre as temáticas da peça e do teatro em geral. Fica só aqui a referência, porque não seria bonito transcrever conversas informais.