Archive for Maio, 2007

Não há comando que plante pérolas

Maio 21, 2007

 

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Não há que enganar o prezado leitor – nem com meias palavras, nem com declarações finais, às quais de resto poucos chegam. O RASCUNHO tem estreitas e queridas relações de profunda amizade com elementos do Teatro Universitário do Minho – outras ainda recentemente plantadas e a crescer. O RASCUNHO assistiu à génese d’O Silêncio, às primeiras tentativas de o levar a palco, trabalhou de perto com o autor, João Negreiros, e ajudou na construção de legos que foi montar o cenário no Teatro da Politécnica, em Lisboa, e voltou ao serviço no final, para o desmontar e levar para casa. O RASCUNHO madrugou, viajou, almoçou, sorriu, abraçou, suou e dormiu com O Silêncio. Posto isto, sim, podemos descansar: O Silêncio é uma obra excelente.

Obra: texto, encenação, interpretação, cenografia, verosimilhança. O ponto de partida é seco: «Esta vida tem que ir para arranjar. Faz barulhos por todo o lado». O grifo é de Aline (Cátia Cunha e Silva), «uma menina com problemas», personagem última, razão primordial da trama. Uma menina que não suporta os barulhos quotidianos – o ladrar do cão, o pingar do aquecedor a óleo, o fechar das persianas (mantém o sol sempre apagado), os chocolates demasiado crocantes… Personagem de fina porcelana – encantadora, volátil, inconformada, insubstituível (na mesura das coisas).

Mas os focos incidem sobre Alípio (José Luís Costa), possível sogro de Aline, e em quem recai toda a sátira aos cidadãos resignados, frustrados pelas vidas que permaneceram desgostosamente por viver, uma terra dos sonhos nunca cumprida, um paraíso do deus-amor-pelas-coisas inatingível. O homem dos infernos no bolso, à volta, no coração. Um homem sem brilho, sem olhos, sem verde. Tudo isto embutido numa personagem brejeira, chegada em bruto das tascas nortenhas: um homem de família, de dinheiro e de putas.

O elenco feito quadrado encerra com o filho bastardo de Alípio, Artur (Benjamim Vaz), um jovem e negligente rockeiro, namorado de Aline; e uma «puta velha», Aurora (Sara Costa), amante paga de Alípio, que sonha com o dia em que o seu príncipe encantado chegará num cavalo branco, empunhando um ramo de rosas vermelhas.

Os twists do texto não teriam a mesma piada escritos por quem se limita a apaixonar-se por esta ou aquela personagem, por este ou aquele tormento, este ou aquele ensejo. Interessa, sim, o paradigma do teatro: é o palco que nos mexe no coração como em água. É no desespero grotesco das crianças incumpridas que se encaixa a grande aprendizagem dos dias que sangram. É nas lágrimas exasperadas, contundentes, dissimuladas no ridículo das personagens, escondidas nas gargalhadas maviosas. Vidas feitas pontos finais, amores desesperados, inacabados, mergulhados no mais maduro vinho das trevas. A ensombrarão do que poderia ser. E a saudade.

É esta a terceira vez em que o RASCUNHO teve oportunidade de ver O Silêncio. Os sentimentos, as gargalhadas, as convulsões internas mudam daqui para ali. Um espectáculo sempre novo. Pequenos pormenores. Grandes descobertas. Mais a cumplicidade impossível de afastar. E quando se reza, é porque se acredita.
Resta uma palavra de apreço ao autor, que se faz aqui valer a par de nomes como Boris Vian ou Anton Tchékhov.

«Quem é que nunca teve medo de ficar sozinho?»

Maio 20, 2007

 

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E mais uma vez, por fatalidade, estamos lá todos, senhor espectador: a solitária que deixou a noite passada a chorar em casa, o que trouxe a namorada para não estarem sempre a ir os dois ao cinema, o amigo do curso, o amigo do actor, o amigo da actriz, os amigos a quem o amigo não se sabe de quem ofereceu convites para o espectáculo. São todos eles corpos presentes à espera de passar a noite e passar a vida numa sala de teatro, deixando por arrumar o resto da vida no resto dos dias por engavetar. E lá salta ela, a rapariga de preto que incomoda como o foco de luz que lhe arregala os olhos. Incomoda e faz o público mexer-se da cadeira com as perguntas indecentes que fazem tossir e coçar a cabeça aos anónimos das filas da frente, que são os primeiros a ouvir a rapariga das perguntas incomodativas que não deixa a peça começar e atira de braços esticados um «Quem é que nunca teve medo de ficar sozinho?» e um outro «Quem é que nunca fez sofrer ninguém?». E a mulher dos óculos deixa sair o primeiro arrepio das calças de ganga, porque já era tempo de alguém da plateia admitir que estávamos todos num cemitério. A culpa, essa, era da «experiência diabólica da vida», que nos saúda ainda em fraldas com um Até sempre servido em bandeja iluminada por velas vermelhas de dia de Todos os santos

Do lado direito da outra vez plateia brilha um abraço mais forte que faz a escuridão tremer. Porque a morte aparece aos pares, senhor espectador. Os acidentes de carro, os ataques de coração, as lâminas de barbear nos pulsos desistentes, as balas de crânio e a inexorável velhice levam sempre uma mão cheia de gente decepada na foice. Alegoria da cultura da morte escondida no campo dos vivos. Sementeira cruel com chuva sempre abundante.

Dois irmãos coveiros comentam o caso insólito da rapariga que morre e não tem ninguém no funeral que deite baba e ranho por ela, talvez porque seja emigrante ou sem-abrigo. Mas não, era Amélia, de seu nome. E Amélia ficou farta da vida, das pessoas, de ser chata e repetitiva, de ter uma família normal como as outras que dança a Cabritinha do Quim Barreiros e faz questão de anunciar quem se casa, quem vai ser mãe, quem conseguiu entrar para a Universidade, quem arranjou emprego, quem completa mais um aniversário… Fenómenos ridículos da existência para quem passa o tempo à espera de morrer, à espera de que chegue o golo do Ricardo no Europeu de 2004, sem luvas, sem o aviso prévio de que estamos todos a meio de um jogo, senhor espectador, e os cachecóis vão sair do armário com naftalina para sugar as lágrimas escorregadias. Cuidado.

Intervalo a preto sem holofotes acesos. O resultado ainda é indefinido e os primeiros comentadores a anteciparem o final da partida são os The Doors, que saem das colunas invisíveis e projectam o implacável This is the end…. Mas para quem é coveiro, o fim está ainda mais perto, porque esse fim aparece ao espelho todos os dias com uma cara nova de caixão, como a de Amélia. A Amélia que deixa um CD, uma carta e um relógio e decide embarcar no além, porque afinal o tempo urge e a herança da morte deixada pelos pais aproxima-se numa diminuição apressada de segundos que não dá tempo ao amor de beijar as horas. E se de repente o amor não tem tempo de viver e nasce num coração de morta? E se o rapaz coveiro, Carlos, de repente gosta de Amélia? A doce Amélia, a linda Amélia, a Amélia que não fala de mais, a Amélia que não chateia, a Amélia que não gasta dinheiro em perfumes, a Amélia que não muda o canal do futebol para ver a novela, a Amélia que ainda por cima parece que era enfermeira ou médica, uma profissão de prestígio que vive para a vida, porque «Desculpe, mas a vida não espera!», em suma: a perfeita Amélia, senhor espectador. E já estamos na segunda parte e parece que Portugal vai mesmo à final do Europeu. E as pessoas continuam a morrer, porque os coveiros também precisam de ganhar a vida, não é Carlos? E o que é que tu viste numa morta que nunca viste, Carlos? Parece que nada, Carlos. E o teu nada é o suficiente para a amares. Para dizeres à namorada Elisa um «Eu gosto de outra mulher», que por acaso está morta, Carlos. E o desejo de um corpo nu não te chega para iludir a santidade da morta que te aumenta o desejo, porque te é inatingível, ó Carlos.

Mas fazemos assim: se Portugal ganhar à Grécia, ganha a Amélia os três pontos, se Portugal perder a final, então Carlos ficará também perdido num coração que dorme debaixo da terra e que cujas raízes nem as quiromantes podem encontrar na palma da mão. Porque o amor é mesmo assim, não há nada a fazer: é misterioso, macabro e acima de tudo piroso como um urso de peluche que diz I love you no dia dos namorados, não é, senhor espectador? Mas mesmo que Portugal perca 1-0 com a Grécia e Carlos prefira a defunta Amélia, se a mesma Amélia estiver afinal viva e for a empregada da limpeza que quis experimentar morrer estando viva, então Carlos volta para Elisa – táctica de jogo imprevista por falcatrua da equipa adversária. E o Barco Negro – «Eu sei, meu amor, que nem chegaste a partir… » da grande Amália faz todo o sentido com um lenço. E todas as elas do mundo vão continuar a pentear os cabelos e a apertarem os vestidos para que todos os eles do mundo as achem bonitas antes de estarem esticadas numa capela mortuária. E assim, com a morta do enredo a ficar viva, a viva que estava morta ressuscita e a vida prossegue com vivos e mortos e mortos-vivos num argumento que é «Como uma força que ninguém pode parar» com sotaque à Nelly Furtado.

(Mas parece que a verdadeira Amélia estava mesmo morta e a estória da empregada da limpeza era uma farsa de Elisa para afastar os instintos quase necrófilos do namorado Carlos… Mas não diga nada, senhor espectador, não se esqueça que também faz parte dos corpos presentes da mentira da vida… E essa vida urge desavergonhadamente enquanto coça a cabeça: tic-tac, tic-tac, tic-tac…)

Corpo presente é o 7º trabalho da autoria de Lara Morgado, Licenciada em Psicologia pela faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto e fundadora do grupo de teatro universitário X-ACto. A peça Corpo presente representada no Teatro da Politécnica contou com a interpretação de Carolina, Daniel Figueiredo, Gisela Borges, Isabel, Joana Serra, Liliana Ribeiro, Raquel Marques, Raquel Teixeira, Rita d’Aires, Sara Silva, Sérgio Rocha, Sérgio saraiva e Sofia.

A revista-não-revista

Maio 18, 2007

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Procura-se
uma peça que quase quase possa ser revista portuguesa. Mas revista portuguesa de inspiração russa. Revista portuguesa da que cheira a Lisboa e a Trás-os-Montes e a Moscovo. Revista portuguesa parida das linhas de um genial Anton Tchékhov e pronta para aterrar nos palcos ‘suburbanos’ do Tejo. Bons vícios literários têm estas companhias de teatro universitárias. Na quarta-feira, Boris Vian arrancou corações com as mãos do Técnico. Ontem, Tchékhov escarneceu Lisboa pela boca da Lusíada.«Quatro peças, em quatro actos, que mostram a vida do ser humano, do ser social, correcto e educado», conta a sinopse da peça. E, já no escuro da sala, há cadeiras que se agarram à voz que anuncia e adverte e sobe panos imaginários que não precisam cair. Sobe. E Começa.

Monólogo. Não é fácil e atiram-te assim, sozinha, caras de público desconfiado e exigente. Não ceder. Arregaçar mangas, limar trejeitos e atacar. Que «vossas excelências saberão com certeza dos malefícios do tabaco» e de triliões de outras coisas que compõem os dias de mulheres submissas e maridos tiranos. Idiossincrasias e tiques nervosos aos gritos no Teatro da Politécnica, expressividade magistral, domínio. E os rostos que se abrem em sorrisos. Finalmente. Fácil? Quem disse que era fácil domar plateias mentiu.

Take 2. E o melhor da peça a nascer do cenário geometricamente alterável por saltimbancos alegres. Músicas a lembrar pradarias do Lousiana. Wayne, és tu? Não. É a portugalidade a marcar pontos, são «animais sociais num permanente auto-controlo falível e que acaba por se denunciar». São animais. Como nós.
O pai bêbado, a filha expedita e o candidato a noivo ensimesmado mas agreste. Rir, rir muito, que a entrada, já se sabia, fora proibida a quem não guardasse gargalhadas de algibeira. Gozar as disputas irrisórias que corroem o azul do quotidiano «e tudo mais». E o que é que isso interessa «e tudo mais»? «Vocês casem-se mas é já e desamparem-me a loja e… tudo mais!», que não há pai que aguente. Sala rendida. A noite estava ganha.

Terceira e quarta partes de «Precisa-se». «A frustração, a raiva, a inveja, a tristeza, o desejo, o amor – um rodopio de sentimentos camuflados no quotidiano». E segue a ode do Grupo de Teatro da Universidade Lusíada (GTUL) ao mestre das histórias pequenas, ao senhor conto: Tchékhov.
Trágico à Força é a história de uma mulher sôfrega de tanto não-viver, de carregar, literalmente, o peso da vida. As convenções e as rotinas na génese de uma insanidade que acaba com «sede de sangue».
A fechar, O urso. A filha desgarrada do segundo acto pinta a alma de um luto bem sensual e chora o marido. Depois, a estória – que mete homem – é a das coisas previsíveis, adivinháveis. Da aspereza à doçura, da carência do toque às saias que se levantam quando corre o vento das vontades carnais. Dos amigos do amor.

O terceiro ano do GTUL no palco mais Fatal(ista) de Lisboa foi um bicho a roubar oxigénio às árvores do Botânico, a dar respiros aos que ontem escolheram os caminhos da Politécnica. Convenceu(-me).

«Um coração sem coração»

Maio 17, 2007

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Performance corajosa que não merece julgamento público. Ainda que mais estética e surreal, corações arrancados numa base física, visual, musical, de impacto de imagem. Ainda que menos literária, e como se sente a falta disso quando há o nome de Boris Vian rubricado em fundo. Quando há uma literatura tão única mas quase ausente na peça. Nada de julgamentos. Do actor, compositor, escritor, músico de jazz, trompetista – Vian – arrancaram-lhe o coração pelo aspecto absurdo, chocante, o extremo surreal. Opção clara por esse caminho. Uma quase total ausência de outros aspectos da sua escrita, aqui mais pornografia que literatura, mais penumbra que sagacidade. O abstracto divorciado da palavra, da construção textual de personagens. O fogo.

Em palco uma complexa trupe de personagens semi-nuas, ou nuas, mais tarde ou mais cedo, com maçãs no rosto, corações por todo o corpo, em todos os actos, o caos. Sustentado num intenso jogo musical, uma cortina sonora explorada pelos actores no microfone. Batidas cardíacas, gemidos, fragmentos de texto, sussurros, gritos. A estética. Uma performance de coreografia, personagens todas sempre em palco, mais de uma dezena, pálidas e mecânicas. [nota da redacção: alguns momentos passíveis de entrar em clips de Mechanical Animals, de Marilyn Manson]

«Ainda não encontrei um coração completamente estragado ou um coração intacto. Todo o coração está na mediocridade. E isso diverte-me». Humor subtil carregado de crítica social. Assim também é Boris Vian. Nada de julgamentos, nada de elogios excessivamente subjectivos. «Avisem todos que anda em liberdade um coração há mais de 24 horas», «as máquinas existem para podermos viver, não é para trabalhar». Aqui está ele.
Não se julga o que a sinopse da peça explica: «o texto de O arranca-corações foi escrito a partir de textos de Boris Vian, utilizados aqui para a construção da dramaturgia do espectáculo», vários textos; «fazer desaparecer os elementos estilizados para que apareça mais a realidade física»; «não queremos contar uma história, nem dizer os textos de Boris Vian, queremos mergulhar no seu imaginário, no imaginário dos seus textos»; «queremos mostrar o absurdo que os homens e as mulheres podem chegar a ser».

Bordel ou cena de filme de terror? A acção desenrola-se na penumbra de luzes tímidas, vermelhas, fracas, sacos de sangue pendurados no tecto, um ou outro banho despido, corações sem coração à espera de serem arrancados, o absurdo, o perverso, situações limite exploradas até à perturbação extrema, público contra a parede. E deus. «Deus está-se nas tintas para as ovelhas, deus quer cavalos de corrida».

O GTIST (Grupo de Teatro do Instuto Superior Técnico – Lisboa), vencedor do Prémio Fatal 2006 para o melhor espectáculo, arriscou uma apresentação contra a indiferença, contra os padrões. Nua, literal, perversa, nua. E corações por arrancar, corajosos, não devem ser julgados.
Aqui jaz um coração. Ou, alegando a biografia de Vian, aqui jazz um coração.

 

GTIST | Sinopse de O Arranca-corações| FATAL | Boris Vian

O outro lado da cortina

Maio 17, 2007

O RASCUNHO esteve momentaneamente em sério risco de não assistir à peça O Arranca Corações. Afastado progressiva e subtilmente da bilheteira por ansiedades alheias com vontade de reclamar seus bilhetes, reservas e afins, decidiu não se juntar à feira. Um caos. Nem fila, nem lógica. Mas, na parte boa, tanta gente interessada. Reservas que caducam, lista de espera activada, pouca compreensão e respeito por parte de alguns espectadores impacientes e indiferentes à ordem.
Assim custa ver, ainda mais quando se trata de adeptos de teatro, a quem se exije um nível de sensibilidade mais equilibrado.
O RASCUNHO entrou, sentado num canto escuro, no vão de escadas, entre as cadeiras e a parede. Uma sala saudavelmente cheia. Nada contra, é bom sentir a audiência viva e interessada.
Já para faltas de respeito, a receita interpretativa é bem diferente.

À mesa com assassinos

Maio 16, 2007

 

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«A vida é bela em Lisboa». A senhora morte atravessa a cidade de autocarro nas histórias de nove jovens. «A primeira pessoa que matei era…»: alguém ou ninguém, não importa, está morto.
Instantâneos da Morte viajou por muitas ideias antes de chegar ao texto final. Base sólida de Raul Brandão para o interior – «O meu primeiro impulso é destruir…», segunda estrutura basilar nos textos de Heiner Müller e tudo misturado com o improviso e experimentação textual vomitadas pela memória dos próprios actores. Construção, portanto. [nota da redacção: nada a ver e tudo relacionado com «Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago/ Dançou e gargalhou como se ouvisse música/ E tropeçou no céu como se fosse um bêbado/ E flutuou no ar como se fosse um pássaro/ E se acabou no chão feito pacote flácido/ Agonizou no meio do passeio público/ Morreu na contramão atrapalhando o tráfego», Construção; Chico Buarque (1971)].

Aparentemente não dói muito. Mata-se e já está. É a tradição europeia de escrever sobre a morte e o assassínio, diz a encenadora Joana Craveira. As referências estão lá, mas nunca no concreto. Lady McBeth, Hamlet, Jasão, Ofélia, alter egos da crueldade engolidos por episódios semi-biográficos dos autores. Estão porque tudo está, mas sem referências óbvias, o que até dá um certo mistério fragmentado à peça. «É como ler um livro», dizia no final Carlos Pimenta, um dos convidados para a tertúlia após o espectáculo. Assim é esta partilha de intimidade.
Os actores vão revivendo os percursos de infância num protegido e viciante exercício de partilha. O candeeiro partido, o taco de basebol, a caixa de chocolates, a caixa de sapatos para guardar tudo, a bomba de asma, as memórias da praia. Objectos nascidos da anunciada «participação do actor enquanto criador de materiais».

A autobiografia, o não arrependimento, o não assumir da culpa. A narrativa adquire um tom confessional que tranquiliza. Mesmo estando o público em frente a um potencial grupo de assassinos, tranquiliza. Mesmo aquando dos gritos: «A culpa morreu. Viva a revolução dos assassinos!». Ou quando se finge que se mata em palco ou as luzes se apagam ou os actores contam histórias ao ouvido de elementos da audiência.

Apresentada pelo grupo 2ª circular – Tearte (da Escola Superior de Comunicação Social do Instituto Politécnico de Lisboa), a peça dá total privilégio à palavra e, em certos momentos, assemelha-se a uma manta fragmentada de pequenos monólogos que se cruzam, pequenos solos de actores em palco sob consentimento dos outros que se sentam de olhar perdido. É quase sempre assim. Bem vistas as coisas, não podia ser de outra forma.

A entrada, com um exercício de dança ao som de uma música disco-metal-kuduro-mais-infinito faz temer o pior dos caos, a entrada num labirinto. Mas rapidamente pousa no texto. Com um recurso a desenhos e retroprojector, para melhor ilustração do seu percurso assassino, os actores assumem duas fases distintas da peça. A primeira, como confissão e explicação. A segunda, na parte final, absolutamente íntima. Cada actor levou consigo um grupo de espectadores para uma mesa, onde tem preparada uma pequena e reflexiva performance de pura partilha interior. É um risco de uma coragem admirável um actor expor-se interiormente com tanta intensidade. E por isso, também por isso, Instantâneos da Morte ultrapassou em muito as barreiras invisíveis do teatro.

«Apesar de tudo o enterro foi bonito». Eles contam, não se arrependem, não confessam que o fizeram. O texto é irrepetível. Em última análise, estão vivos.

Nota: No final da peça, uma tertúlia: Carlos Pimenta e Álvaro Correia foram os convidados especiais. Conversa interessante entre actores, encenadora, convidada e público sobre as temáticas da peça e do teatro em geral. Fica só aqui a referência, porque não seria bonito transcrever conversas informais.

Édipo já furou os próprios olhos mas ainda não salvou ninguém

Maio 16, 2007

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Não tenho nada a acrescentar à data e hora: 11 e 12 de Maio, às zero horas – o tempo que fale por si. Mas quanto ao local, arrisca-se dizer que não podia ser melhor escolhido. Largo de Camões, ponto de encontro dos noctívagos, local obrigatório de paragem para qualquer anónimo caminhante. Público maioritariamente acidental, como convém a uma performance de choque.

Ó Édipos! invade o largo com actores escondidos sob máscaras brancas, frases provocatórias suspensas nos braços e um silêncio tão expressivo como o olhar. Há inquietação misturada com comentários de fuga emitidos por rapazes de garrafa de álcool na mão – o público, lá está. Os actores contorcem-se, num desmaio adiado, mesmo que já no chão.

Sófocles ou Freud? Édipo, segundo um resumo preguiçoso: o filho apaixona-se pela mãe e mata o pai pelo mesmo motivo. Quando se apercebe que é por sua mãe que se apaixona, fura os olhos. Sua mãe suicida-se. Sófocles assassinado em duas linhas, portanto. Mas para quê recorrer a uma tragédia com tantos séculos de existência? Olhem para a minha tragédia! A pergunta vem de um elemento que atravessa o público de megafone na mão e, por momentos, confunde a audiência sobre a sua origem. Faz ou não parte da encenação? É que o homem, com problemas, muitos problemas, interrompe a actuação das máscaras, critica-as pela ousadia, porque no seu tempo o teatro era olhos nos olhos, sem máscaras nem subterfúgios, e só se cala quando é abraçado por todo o grupo. Dúvida dissipada: faz mesmo parte da peça.

«O que se esconde por detrás da nossa máscara social? Estaremos cegos para o nosso mundo interior? Como “abrir os olhos”, fechando-os?». Retirada do resumo da performance aí está a génese da fase seguinte do espectáculo. Os actores da dISPArteatro (do Instituto Superior de Psicologia Aplicada) vendam os olhos e avançam sobre o público, buscam-no por dentro. Quer conhecer-se melhor?, perguntam enquanto oferecem vendas. (nota: oferecer vendas nem nos sonhos é comércio)

É interventiva, sim senhor. E faz pensar. Olhem só do que se foram lembrar: fazer pensar. A nossa tragédia quotidiana tem outras seculares acumuladas ou é só mais uma birra pequenina? Seja como for, Ò Édipo! criou vontade de abraçar desconhecidos, o que já vale metade do abraço.

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Primeira facada

Maio 16, 2007

Tarde mas a tempo. O rascunho chegou ao Fatal – Festival de Teatro Académico de Lisboa e promete, aqui neste blogue, uma lente muito próxima do palco do festival. Tarde porque já perdeu arte: a performance Deficientes e Eficientes e o quadrado de peças composto por Blame Beckett, do GTN, Projecto Muller, pelo TEUC, Público, pelo USC (de Lugo) e A Missão, pelo GTL, já não fazem parte das contas deste trabalho. Fica, no entanto, aqui o registo.

O Fatal já anda na rua desde 10 de Maio. E já lá vão seis dias. É transparente, humilde, apaixonada – a confissão. E assim partimos para os textos que hão-de vir. Até 27 de Maio, Lisboa não tem salvação. É o berço do teatro universitário.

Um último parágrafo dedicado à interactividade. É esse um dos motivos maiores da criação deste blogue. Discutir, opiniar, sublinhar, arriscar palavras sem medo dos efeitos secundários. Leitores, espectadores, actores, encenadores, criadores, curiosos, organizadores, destabilizadores. Todos estão convidados a juntar as mãos ao fogo e deixarem aqui comentário. Há a caixa de comentários e ainda o mail rascunhonofatal@gmail.com.
Caia o pano.

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