Os desesperados pensantes

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«- Como é que se arranca um cheiro?
– Despindo-o.
– Não posso, a minha nudez já é fatal».


Quinze pessoas em palco, sempre em palco, sem pano, sem cenas nem vírgulas. Ninguém entra e ninguém sai, porque o palco é um armazém.

Os quinze no armazém são portugueses que regressaram das ex-colónias. Um acontecimento real e luso é o barco da história do Armazém que o TEB, o grupo de teatro do Instituto Politécnico de Bragança, foi contar no FATAL na primeira vez que nele participou. Os personagens remexem nas muitas malas espalhadas pelo espaço fechado, procuram. É que perderam a bagagem, os filhos e o cheiro no confuso processo que os fez regressar.

«Era um mundo que se desmoronava, eram histórias de vida que ruíam e os protagonistas desta tragédia não sabiam se estavam no fim ou no início da História; sabiam-se, apenas, perdidos, com as suas vidas suspensas, reféns de um destino que não escolheram» dá o tom à sinopse.

Na encenação de Helena Genésio não há gritos. Ninguém se acende. Procuram, deambulam, trocam diálogos que nos prendem de bonitos, da autora Vânia Cosme. São desesperados pensantes, as personagens, reflectem fundo e poeticamente o seu desespero em belas metáforas. Sempre quase sussurrando, sempre tristes, sempre triste. As palavras a quebrarem em fragilidade no armazém.

Às vezes são todos iguais. Sentem e pensam e são só um. Dizem longas frases em coro. O andamento de toda a peça é lento e monótono, as frases mastigadas em leitura de salmo vincam o tom do princípio ao fim, mas que não maça porque o tempo da peça é curto. É uma injecção ou um guincho agudo, mas em grave.

«Em 1975, crianças ainda, vivemos juntas a experiência dramática do Armazém. Durante uma semana inteira procurámos, sozinhas, por entre milhares e milhares de malas, sacos e caixas, as duas malas da avó Joaninha. Nunca as tínhamos visto. Ao fim de oito dias conseguimos descobri-las através das etiquetas. Corria o mês de Outubro e o êxodo dos portugueses das ex-colónias estava a chegar ao fim… Desses dias terríveis apenas recordo o Armazém, o meu choro ininterrupto e o calor da mão da minha irmã a que eu me agarrava desesperadamente com medo de me perder».
Armazenado.

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