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Para fazer serviço a Deus, E arrenegar o Diabo

Maio 27, 2007

 

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Como diz o povo «a água dorme de noite, não sendo bom bebê-la a não ser na noite de S.João». E é numa noite de S. João que tudo começa. Como o ciclo da água. Como o ciclo de uma estória. Num palco recheado de cores e gentes, o ambiente é de festa, banhada a gargalhadas e rodopios frenéticos. Um rapaz recebe as graças do baptismo pagão, enquanto cruza a fronteira entre o ser adolescente e a idade adulta. O divino vinho banha os corpos e as goelas sedentas, e a Cantiga dos bebedores embriaga os corações vadios. É uma autêntica farra dionisíaca do GEFAC – Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra – que incendeia todo o Teatro da Politécnica.

Empoleirados do lado direito do palco estão, de baixo para cima: uma violinista, quatro guitarristas, um acordeão, dois tambores e quatro cantoras. Todos rigorosa e coloridamente trajados como manda o folclórico figurino bem português, bem nosso. Elas: saias rodadas bordadas a flores, lencinhos na cabeça e socas por fora das meias rendadas. Eles: calça negra e camisa branca, colete preto e lenço ao pescoço. Mas os intrumentos, esses, vão variando numa miscelânea de sons bem familiares como o cavaquinho, a gaita de foles, o pandeiro, e mesmo aqueles que reproduzem a natureza como as conchas, a chuva, o chilrear dos pássaros. Ao lado, estende-se uma rede branca desde o tecto até ao chão, em jeito de tela, onde vão surgindo imagens de vídeo. Também é lá a divisória entre um plano frontal do representado e um outro imaginado, um véu fronteiriço entre a realidade e o sonho. Uma enorme variedade de elementos num espectáculo globalizante, que assenta não só na encenação da música popular portuguesa, mas no próprio sentimento e manifestações que provocaram o seu aparecimento, de Norte a Sul do país.

Mas voltemos à estória de A água dorme de noite. Depois do baptismo e de dançarem o Chote e cantarem Ó meu São João Baptista, o jovem delira nas angústias da vida. Minhas mãos molho, Minha cara lavo, Para fazer serviço a Deus, E arrenegar o Diabo… Minhas mãos molho, Minha cara lavo, Para fazer serviço a Deus e arrenegar o Diabo. Seres mascarados impulsionam o momento de divagação da noite. Mentes convulsas sofrem com o pesar do passado, as tentações do presente e as angústias do futuro. São João adormeceu. Mas o espectáculo decorre num ritmo circular e contínuo de alegria e tristeza, euforia e amargura, dia e noite, luz e treva.  As estórias jorram, como a água, como a música. Depois da noite vem o dia, e com o dia a labuta. Num momento extremamente bem conseguido, a tela exibe em “pormaior” uma senhora que caminha sobre uma grande roda de água. Com os pés duros, calejados, e uma doce face cansada de rugas. Minha roda está parada, e Ai ajuda-me, ó camarada. Sofremos. Penamos com ela. No campo, debaixo do sol ardente que queima os corpos trabalhadores, quais arados humanos, entre os homens acende-se o fogo da contrariedade. Porque o Homem é também capricho, orgulho, rivalidade, e das lutas da terra nascem as pequenas batalhas. Armados de chapéus floridos que as moçoilas criaram junto ao rio, os rapazes armam-se de paus e dançam as danças de Paulitos como Padre António e Sr.Mio. Clac! Clac! Clac! Clac!, é um ritmo frenético numa dança que parece mentira de tão coordenada.Clac! Clac! Clac! e o pés saltitam ao compasso dos tambores que rufam. E no meio da guerra que se tornou galhofa através da música, segue-se a calma, o cansaço… e o amor. Ele que chega intruso, não fosse ele o amor. Atrás do véu a sedução, e a preparação para o tão esperado encontro. Entre os pares que já bailam, o rapaz encontra a sua amada e oferece-lhe uma tímida flor. Ai que me dobraste o encanto! E todos dançavam, quando subitamente a música pára e os corpos unidos descendem, rendendo-se ao fogo da paixão. Rebolando (literalmente) sincronizados pelo chão, de súbito tudo o que se vê são Saias e uma Chula Passada bem ao sabor minhoto. A noite começa então a suspirar ao sabor da chuva. E como eles a elas, o mar invade a terra, para do seu ventre brotarem novos frutos. Um véu branco desliza sobre os corpos que simulam as ondas.

Na tela lê-se: «Tudo dura o que duram os reflexos agitados. Só este rio imenso segue o seu curso inalterável e incessante para aquele mar profundo» (Raul Brandão, Os Pescadores)

 

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É de noite. E como o terminar de um ciclo não o seria sem ela, chega a insustentável Saudade. E a água, finalmente, adormeceu.