Quando a campainha toca é sempre alguém

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Brilhante, brilhante, brilhante. Aí fica o triângulo de adjectivo único. Raios partam os adjectivos e quem deles abusa! Havia vários apontamentos sobre a peça, escritos a caneta preta também no escuro mas não os consigo perceber. Mas contra sabotagens acidentais pode bem o teatro e uma peça como esta. A cantora careca, criação do delirante Eugène Inesco, apresentado pelos portuenses Máscara Solta (da Faculdade de Letras da Universidade do Porto) não precisa de cábulas para nada. É uma recriação muito próxima do irrepreensível.

Mas vamos lá ver se organizamos as ideias. O texto é absolutamente avassalador. Entre o surrealismo, a poesia e o humor sarcástico. Ridendo Castigat Mores – aquela coisa em latim para dizer que a rir se criticam os costumes. Voilá! Muito ao jeito de Boris Vian, mas diferente, diferente. A interpretação das personagens e  de situações caricatas foi aplicada com o nível ideal de extremo. Quase sempre no volume certo. Quando assim é, não há muito mais a dizer. Não há queixas, apenas um profundo agradecimento por nos dizerem assim um livro, mostrarem com competência o mundo interior de um autor.

Tudo começa com um quadro da Gioconda ou Mona Lisa ou La Joconde (aquela coisa numa tela de Da Vinci) iluminado numa parede. Depois a família Smith: um homem e três mulheres. A família Martin: um homem e quatro mulheres. A empregada doméstica. A Senhora Comandante dos Bombeiros. E uma cascata de situações ridículas todas passadas na sala de visitas dos Martin, «nos arredores do Londres» (dito com vaidade e sotaque very british). Foi escrito em 1954, ontem portanto: «as conversas cegas, as palavras ocas e doentes». Confirma-se, ontem.

«Por que é que na necrologia dizem sempre a idade dos falecidos e nunca dos recém-nascidos?». A empregada foi ao cinema. Os patrões reclamam. «-Mas foram vocês que me autorizaram! – Não foi de propósito». A campainha toca. Quatro vezes. Deve ser alguém. Não! Não era ninguém. Quando a campainha toca é sempre alguém. Não, quando campainha toca nunca é ninguém. Discussão filosófica da noite. A Senhora Comandante entra, faz umas gracinhas de circo, posa para a fotografia, tão engraçada que ela é. Mas é assunto sério que a leva lá, lembra-se meia hora depois: Há fogo nesta casa. Não, não há. Nem um bocadinho? Não. É pena. Pois é, isto anda mau para todos. Tem consciência social a Senhora: «Os naturalizados têm direito a casas mas não a que lhe extingamos o fogo se elas começarem a arder». É bonito.

A cantora careca é uma prisão. Um vício. Não devia ter fim. Desconfio que o autor tenha deixado a última página em branco, por esse mesmo motivo. E talvez por isso a opção da Máscara Solta para a cena final tenha sido tão estranha. Um caos de dança em palco, com cada um dos autores a aproximar-se do público, à vez, e soltar a primeira frase oca que lhe vem à cabeça. De improviso, acredito. Deixem-me acreditar porque assim é mais bonito. Os fins das coisas são sempre difíceis. Não há fórmulas. Sei lá. E este foi estranho. Ainda mais depois de uma peça… qual era mesmo a base do triângulo?… isso, brilhante.
A propósito dessa questão, ou ampliando-a ainda mais, José Luís Costa, actor principal da peça Silêncio (pelo Teatro Universitário do Minho) já me tinha deixado um segredo. Que me perdoe por agora o tornar público. Mas é demasiado bonito para que não seja partilhado: «Se o primeiro espectáculo é como dar à luz, o último é como perder um filho».

Fica pelo menos a última frase com que se despediram os actores da Máscara Solta: «Não é por ali. É por aqui».

Eugène Ionesco

Uma resposta to “Quando a campainha toca é sempre alguém”

  1. milton Says:

    oi sou o Milton do ato.kom…. bom nos tanbem estamos com a proposta da cantora careca muito bom esse livro temos em vista q a estreia vai ser em março no final

    bom qualquer coisa irei dexar vcs sabendo e se vcs tbm tiverem comvites mandem para mim…

    gracias ate +

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