Como resistir a um Clássico?

by

 

dispar2.jpg

Primeiro impacto: o fascínio pela máscara. Clássica, contemporânea, criada sem qualquer tipo de preocupação com esses conceitos estéticos? Não interessa. É um objecto total. Arte em palco, na rua, onde quer que a máscara esteja. Mistério, atracção, fascínio. Segundo impacto: o quadro estático a gerar impaciência com que a peça começa. Contudo, as máscaras. Um deus ou homem no chão, amarrado pelos pés. E as máscaras são um coro a tempo inteiro.

Oedipus e a tragédia com 2400 anos, é Sófocles. Oedipus pelo trabalho dos mesmos criadores de Ó Édipos, performance também já aqui referenciada. Os actores do dISPArteatro (do Instituto Superior de Psicologia Aplicada) aproveitam a estética desse trabalho e acrescentam-lhe texto e diálogo clássico vindos directamente da pena do autor (e subsequentes tradutores e adaptadores) grego. E aí começam os problemas. Ai desgraçado Édipo!

Se a encenação e o conceito são dignos do mais sincero dos aplausos, já o resto deixa muito, tudo, quase tanto como o tudo, a desejar. Os jovens futuro psicólogos não resistiram à narrativa floreada de Sófocles, aos exigentes e extenuantes diálogos, e apresentaram uma versão quase imperceptível, por trapalhona, por muito pouca preparação, das palavras daquele que é «um dos maiores intelectuais da antiguidade clássica». É o risco dos clássicos: ou são irrepreensivelmente interpretados ou espalham o desconforto pelas cadeiras de quem os vê. dISPAteatro afogou-se no texto para nunca mais respirar. As palavras, ensopadas, sentiam-se mal e semeavam o mal-estar de quem não percebe. E, mesmo para quem não conhecia ainda a tragédia, para os optimistas que viam no texto mais uma missão de curiosidade que de exigência, o eco que lhes chega será sempre traumático.

«Que algum socorro nos alcance». E foi mesmo uma pena. Porque toda a estratégica cénica estava preparada para funcionar com elevados níveis de eficácia. As máscaras, uma vez mais, as trocas de figurino em pleno palco quase com uma invisibilidade tal que o público nem se apercebia, o constante jogo físico entre o coro e as personagens mais importantes à volta de Édipo, a sonoplastia reduzida ao mínimo e ao útil. Uma pena, com uma credível sensação na ponta que, com mais alguns meses de trabalho em volta do texto e da melhor forma de o dizer (nota da redacção: e a ler Sinisterra), o resultado final a apresentar poderia chegar a níveis muito interessantes.

Para todo o efeito, fica a reflexão interior de uma das mais intensas tragédias da história da arte dos palcos. E, sendo teatro, também é psicologia o que aconteceu na noite de 23 de Maio, no Teatro da Politécnica. Por exemplo: «a vertente centrada no indivíduo, no processo de auto-descoberta, no “conhecer-te a ti mesmo” escrito no tempo de Delphos», a «busca da verdadeira identidade», «a incapacidade do homem contemporâneo de ver e compreender os factos que o levaram a situações dramáticas». Tudo reflexões inerentes à tragédia, assumidas frontalmente pelos intervenientes da peça.

E por isso as máscaras. E por isso o arrancar das máscaras e o vendar os olhos, metáfora perfeita, depois de perceberem que Édipo arrancara os seus. E a fortíssima imagem da máscaras abandonados no chão. A caminhar sem ver, em busca interior.
Impacto último: um final irrepreensível que pede um desconto de tempo para meditação. Objectivo atingido, sobretudo para quem não é muito exigente com a técnica e não se importa de não perceber alguns diálogos. Mas, sim, objectivo atingido. E, sim, o abraço de Ó Édipos, em pleno Largo Camões, a um suposto anónimo que sofre é muito mais terapêutico para os sentidos, que um abraço em palco a um Édipo distante que arrancou os olhos há mais de dois mil anos.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: