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«Se dormisse, talvez eu amasse…»

Maio 23, 2007

 

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Deviam ser 21h30, mas o relógio de pulso dizia enervado e a suar que as 22h30 já lá estavam no monte de gente que se acumulou para ver a peça que estava atrasada. Parecia o fim. Mas a partida para os bancos da plateia ainda nem começara. Fim de partida, chamava-se a peça. Grupo NEXT, da Faculdade de Belas Artes de Lisboa assumiu o palco. «Parece que é de Beckett e foi traduzida do original francês para o castelhano por Ana Moura Moix», diz o rapaz que lê a sinopse em voz alta pela pelo menos terceira vez. E finalmente, ao 44º empurrão e à aparição das primeiras bifanas no pão para os que tinham jantado cedo e enganavam os nervos com carne, entra tudo para a sala preta da tela preta. (O ‘finalmente’ sai com um alívio desesperante).

O cheiro a remédios e a música alta que soa a uma mistura inexplicável de metralhadora + banda sonora de filme de ficção científica + broca de dentista dão início às primeiras alucinações por parte dos espectadores que apreciam a Unidade de Terapia Intensiva (UTI). É a autêntica consulta colectiva. O desespero da gente sentada, da gente deitada, da gente cansada de esperar pelos sonâmbulos verdes que aparecem do outro lado da sala a um conta gotas interminável de silêncio. São eles sonâmbulos de bata verde e máscaras de gás: guerreiros duma vida telecomandada à dezena. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10 doentes da vida moderna sentados num ambiente à Admirável mundo novo do Aldous Huxley. E o homem morto jaz ali no meio. Nu. Inocentemente nu e com um farrapo vermelho na mão, legado dos vermes que o esperam amanhã na terra. E pendem do céu negro de tecto-de-teatro garrafas com líquido às cores, cujos tubos invadem o corpo do homem. Daquele homem. O homem que sofre paranoicamente deitado, títere duns tubos que já não o deixam urinar de pé, para mostrar que é um homem, caramba.

É a paciência de Job começar a ser testada pelas cadeiras que não param quietas, é o ‘não se aguenta’ e é o homem que geme furiosamente com versos de raiva que leu nos livros de quando era menino (e urinava de pé) e sonhava com os sonhos. E sim, só aquele homem é que fala. Diz que «a Internet é que liga o mundo, mas na África as mortes continuam a acontecer». Teatro-monólogo sem fim à vista que diz coisas às vezes mágicas com gritos de mulher a parir. Incomoda? Sim, muito. E o homem que não se cala diz uma coisa que faz esquecer que a peça está a ser um sufoco, pergunta se «duvidamos dos olhos azuis de Cristo». Não sei. Duvidamos?

O som de fundo que agora se parece a um martelo pneumático no máximo já não é suportado por nenhum ouvido humanamente normal, porque causa tremores a caminho do tímpano. (Mas por que é que a plateia está cheia de gente a ver isto?). É o quase a A aula de anatomia de Rembrandt, mas não está lá nenhuma aula de anatomia. Mas é o quase. E o Homem tenta mexer-se, mas só mexe tubos e diz que «isto é o fim, isto vai acabar», que no fundo é o que algum-muito público quer há já uma hora atrás, porque já é impossível conseguir ver aquele homem rodeado de seres verdes, inertes e mudos. «Já são horas de que isto acabe», sugere, enquanto quer morrer e não o deixam, quer dormir e não o deixam… «Se dormisse, talvez eu amasse. Íamos atrás dos nossos desejos perdidos». E o comando piolhoso que causa comichão de choques interrompe-lhe uma bonita frase que diz que «Há um coração de sangue vermelho na minha cabeça cega». Mas o que o homem quer e repete bem alto e bem furioso é que tem «vontade de fazer xixi». Tem, mas não pode, porque o tubo suga-lhe todos os líquidos da essência da vida. E ele sonha com o maior desses líquidos, o mar. E quer «partir só a caminho do mar», mas fica perturbado e nunca se cala, nem o barulho se cala, nem as pessoas se calam, nem o escuro se cala quando deixa o homem cego ver que um dia todos seremos como ele.

Reza-se o Pai Nosso. (Sim, já nem o mais santo aguenta dentro da sala.) De repente ficamos todos às escuras e é a gota-de-água da fúria contra o homem que nos causa tanta fúria, mas de quem partilhamos essa fúria e não sabemos. Mas vá lá, ele perdoa-nos e cospe bem alto «Fim da palhaçada» – o que para a assistência das 00h02 quis dizer Fim.

(Irritou-irritou-irritou-irritou-irritou-se muito? Então, parabéns, por ter compreendido a peça).

A imaginação, a verdade: teatro

Maio 23, 2007

 

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Aí está a peça chave da edição deste ano do FATAL. Enquanto todos arriscam, de extremo em extremo, de dúvida em decisão, Pervertimento apresenta uma profunda e bem sustentada reflexão sobre as mais pertinentes questões que rodeiam o mundo teatro. José Sanchis Sinisterra, o valenciano, é autor do magnífico texto apresentado pelo grupo CENAtÓRIO«a meta-análise do teatro». Semiótica pura sobre as artes de palco. Encenação coerente e envolvente.

Então começa assim: no centro do palco despido, uma caixa de luz – «uma caixa mágica que abre um espaço numa nova dimensão». Nada mais. Suficiente para sonhar, imaginar, pensar. E a constante provocação e confrontação do papel do público: «Se fosse aos senhores eu protestava. Trazê-los para aqui para ver isto?»; o que realmente acontece de interessante não se passa em palco, mas ali ao lado, diz um dos actores.
Antes disso. Dois actores encontram finalmente a caixa, glorioso diálogo de abertura. O que é agora sempre esteve aqui? Para que serve agora? «- Já não te interessa? – Não.
– Depois de tanta procura? – Precisamente»
.

O actor está dentro da personagem. A personagem está dentro do texto. O texto vem de dentro do autor. O autor é uma personagem que escreve dentro de uma pessoa. Antes e depois do ciclo, entremeado, nas extremidades, o teatro. É bom pensar globalmente.
«Uma mulher e um homem, frente a frente, em silêncio. Isto sim é teatro!» ou «No teatro tudo é uma questão de imaginação» ou «No teatro tudo é uma questão de verdade» e «Nada de acções fáceis. Alto!».

A encenação, com ou sem caixa no meio, é um magnífico exercício de descontinuidade. Fragmentos contínuos, entenda-se. Ou, como os próprios responsáveis explicam, «um espectáculo compartimentalizado em cenas/sketches». Silêncios nos lugares certos, texto a respirar com precisão na maior parte do tempo, presença física forte, nos gestos, nos olhos. Momento de verdade, comprova-se. A imaginação. O gelo e o fogo. Peça-chave porque total. À luz da proposta, era muito difícil fazê-la ir mais longe. Se é certo que nem tudo é uma questão de distâncias, também o é que a ordem natural das coisas foi pensada para desaguar em destino seguro. Assim foi. 

E o que acontece quando um actor descobre que o texto que diz, e diz sentir, e diz assumir, não é seu? «Enoja-me abrir a boca sabendo que nada do que digo sou eu quem o diz». Quem diz tudo é o autor, diz um actor inteligente. Até isto que diz agora. Até o que fica por dizer. O actor não diz nada. E «se nos calarmos, também será dele este silêncio nosso». Tramado descobri-lo em palco. Autor sádico a brincar às marionetas com os actores.

E o que acontece quando uma personagem se recusa a sair do palco na cena final com o corpo de autor. E reflecte sobre o que lhe vai acontecer depois de cair o pano. Actor vangloriado, aplaudido e personagem a apanhar pó e teias de aranha. «O actor é o actor, eu sou eu», diz a personagem. Não tem nada contra o primeiro, mas por favor pensem um bocadinho no segundo, por uns minutos.

E agora sim, omitidas outras cenas da peça, o teatro também pode ser a arte da omissão, podemos ver o pano cair com tranquilidade. Aplaudir porque é normal aplaudir no final, sabe bem como o espreguiçar, descarga a consciência também. E uma inequívoca sensação no final do espectáculo: esta noite o público foi respeitado. E terminar o texto com uma elucidativa explicação dada pelos intervenientes do CENAtÓRIO:
«O teatro é feito para os outros, ultrapassa os limites masturbatórios dos “artistas”, e obriga-nos a um altruísmo que provavelmente não será mais que o entendimento da comunicação como o processo de chegar ao público».

 
Sinisterra (wikipedia)