Não há comando que plante pérolas

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Não há que enganar o prezado leitor – nem com meias palavras, nem com declarações finais, às quais de resto poucos chegam. O RASCUNHO tem estreitas e queridas relações de profunda amizade com elementos do Teatro Universitário do Minho – outras ainda recentemente plantadas e a crescer. O RASCUNHO assistiu à génese d’O Silêncio, às primeiras tentativas de o levar a palco, trabalhou de perto com o autor, João Negreiros, e ajudou na construção de legos que foi montar o cenário no Teatro da Politécnica, em Lisboa, e voltou ao serviço no final, para o desmontar e levar para casa. O RASCUNHO madrugou, viajou, almoçou, sorriu, abraçou, suou e dormiu com O Silêncio. Posto isto, sim, podemos descansar: O Silêncio é uma obra excelente.

Obra: texto, encenação, interpretação, cenografia, verosimilhança. O ponto de partida é seco: «Esta vida tem que ir para arranjar. Faz barulhos por todo o lado». O grifo é de Aline (Cátia Cunha e Silva), «uma menina com problemas», personagem última, razão primordial da trama. Uma menina que não suporta os barulhos quotidianos – o ladrar do cão, o pingar do aquecedor a óleo, o fechar das persianas (mantém o sol sempre apagado), os chocolates demasiado crocantes… Personagem de fina porcelana – encantadora, volátil, inconformada, insubstituível (na mesura das coisas).

Mas os focos incidem sobre Alípio (José Luís Costa), possível sogro de Aline, e em quem recai toda a sátira aos cidadãos resignados, frustrados pelas vidas que permaneceram desgostosamente por viver, uma terra dos sonhos nunca cumprida, um paraíso do deus-amor-pelas-coisas inatingível. O homem dos infernos no bolso, à volta, no coração. Um homem sem brilho, sem olhos, sem verde. Tudo isto embutido numa personagem brejeira, chegada em bruto das tascas nortenhas: um homem de família, de dinheiro e de putas.

O elenco feito quadrado encerra com o filho bastardo de Alípio, Artur (Benjamim Vaz), um jovem e negligente rockeiro, namorado de Aline; e uma «puta velha», Aurora (Sara Costa), amante paga de Alípio, que sonha com o dia em que o seu príncipe encantado chegará num cavalo branco, empunhando um ramo de rosas vermelhas.

Os twists do texto não teriam a mesma piada escritos por quem se limita a apaixonar-se por esta ou aquela personagem, por este ou aquele tormento, este ou aquele ensejo. Interessa, sim, o paradigma do teatro: é o palco que nos mexe no coração como em água. É no desespero grotesco das crianças incumpridas que se encaixa a grande aprendizagem dos dias que sangram. É nas lágrimas exasperadas, contundentes, dissimuladas no ridículo das personagens, escondidas nas gargalhadas maviosas. Vidas feitas pontos finais, amores desesperados, inacabados, mergulhados no mais maduro vinho das trevas. A ensombrarão do que poderia ser. E a saudade.

É esta a terceira vez em que o RASCUNHO teve oportunidade de ver O Silêncio. Os sentimentos, as gargalhadas, as convulsões internas mudam daqui para ali. Um espectáculo sempre novo. Pequenos pormenores. Grandes descobertas. Mais a cumplicidade impossível de afastar. E quando se reza, é porque se acredita.
Resta uma palavra de apreço ao autor, que se faz aqui valer a par de nomes como Boris Vian ou Anton Tchékhov.

4 Respostas to “Não há comando que plante pérolas”

  1. margarida Says:

    Depois de termos visto a peça em braga notámos qualidade no trabalho realizado por actores, encenador e técnicos….apesar dos recursos limitados o TUM tem conseguido manter a qualidade a que nos habituou…
    Ao nível da crítica implícita na peça salientámos o facto de existir na realidade muitas pessoas que se poderiam rever nas personagens…
    Destacámos a actuação do ZÉ LUÍS.não o reconhecemos.esse acho que é talvez o melhor comentário que se pode fazer à actuação de alguém…esteve extraordinário!!!
    Bjinhos e CONTINUEM..Na próxima estreia estaremos lá…
    Margarida Carvalho e Marisa Ribeiro

  2. Quando a campainha toca é sempre alguém « Rascunho no fatal Says:

    […] A propósito dessa questão, ou ampliando-a ainda mais, José Luís Costa, actor principal da peça Silêncio (pelo Teatro Universitário do Minho) já me tinha deixado um segredo. Que me perdoe por agora o […]

  3. novo destino « Sozinho a desenhar Says:

    […] não param de crescer. (Ainda bem.) Agora é uma menina verde – companheira de bricolage aqui – a aventurar-se (literalmente) na blogosfera. Chama-se Verdinha. Assina a menina Dina […]

  4. verdinha Says:

    verde companheira de bricolage literalmente falando!!=0)… o t.u.m passou por lá e deixou bem marcado a sua presença… é nestes dias de intensa canseira que fico realmente contente por ver a” solidariedade artistica” obrigado hugo, foste simplesmente incansavél.. e não são apenas trechos de simpatia..é sincero..se nao fosses um jovem tão ocupado.. o t.u.m também tem um lugar para ti, e não como companheiro de bricolage.. =) pensa nisso!

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