Archive for 18 de Maio, 2007

A revista-não-revista

Maio 18, 2007

fatak.jpg


Procura-se
uma peça que quase quase possa ser revista portuguesa. Mas revista portuguesa de inspiração russa. Revista portuguesa da que cheira a Lisboa e a Trás-os-Montes e a Moscovo. Revista portuguesa parida das linhas de um genial Anton Tchékhov e pronta para aterrar nos palcos ‘suburbanos’ do Tejo. Bons vícios literários têm estas companhias de teatro universitárias. Na quarta-feira, Boris Vian arrancou corações com as mãos do Técnico. Ontem, Tchékhov escarneceu Lisboa pela boca da Lusíada.«Quatro peças, em quatro actos, que mostram a vida do ser humano, do ser social, correcto e educado», conta a sinopse da peça. E, já no escuro da sala, há cadeiras que se agarram à voz que anuncia e adverte e sobe panos imaginários que não precisam cair. Sobe. E Começa.

Monólogo. Não é fácil e atiram-te assim, sozinha, caras de público desconfiado e exigente. Não ceder. Arregaçar mangas, limar trejeitos e atacar. Que «vossas excelências saberão com certeza dos malefícios do tabaco» e de triliões de outras coisas que compõem os dias de mulheres submissas e maridos tiranos. Idiossincrasias e tiques nervosos aos gritos no Teatro da Politécnica, expressividade magistral, domínio. E os rostos que se abrem em sorrisos. Finalmente. Fácil? Quem disse que era fácil domar plateias mentiu.

Take 2. E o melhor da peça a nascer do cenário geometricamente alterável por saltimbancos alegres. Músicas a lembrar pradarias do Lousiana. Wayne, és tu? Não. É a portugalidade a marcar pontos, são «animais sociais num permanente auto-controlo falível e que acaba por se denunciar». São animais. Como nós.
O pai bêbado, a filha expedita e o candidato a noivo ensimesmado mas agreste. Rir, rir muito, que a entrada, já se sabia, fora proibida a quem não guardasse gargalhadas de algibeira. Gozar as disputas irrisórias que corroem o azul do quotidiano «e tudo mais». E o que é que isso interessa «e tudo mais»? «Vocês casem-se mas é já e desamparem-me a loja e… tudo mais!», que não há pai que aguente. Sala rendida. A noite estava ganha.

Terceira e quarta partes de «Precisa-se». «A frustração, a raiva, a inveja, a tristeza, o desejo, o amor – um rodopio de sentimentos camuflados no quotidiano». E segue a ode do Grupo de Teatro da Universidade Lusíada (GTUL) ao mestre das histórias pequenas, ao senhor conto: Tchékhov.
Trágico à Força é a história de uma mulher sôfrega de tanto não-viver, de carregar, literalmente, o peso da vida. As convenções e as rotinas na génese de uma insanidade que acaba com «sede de sangue».
A fechar, O urso. A filha desgarrada do segundo acto pinta a alma de um luto bem sensual e chora o marido. Depois, a estória – que mete homem – é a das coisas previsíveis, adivinháveis. Da aspereza à doçura, da carência do toque às saias que se levantam quando corre o vento das vontades carnais. Dos amigos do amor.

O terceiro ano do GTUL no palco mais Fatal(ista) de Lisboa foi um bicho a roubar oxigénio às árvores do Botânico, a dar respiros aos que ontem escolheram os caminhos da Politécnica. Convenceu(-me).