Archive for Maio, 2007

Segunda Chamada para o Passatempo

Maio 29, 2007

O RASCUNHO ainda tem para oferecer aos leitores alguns dos 15 convites duplos disponibilizados para a Festa de Encerramento do FATAL. Para os conseguirem basta que respondam acertadamente à seguinte questão (enviando a resposta para o mail de serviço da nossa cobertura do Festival: rascunhonofatal@gmail.com):

A peça Corpo presente foi interpretada pelo grupo portuense X-Acto. O texto e a encenação foram assinados por uma jovem dramaturga nortenha. Como se chama?

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Os desesperados pensantes

Maio 29, 2007

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«- Como é que se arranca um cheiro?
– Despindo-o.
– Não posso, a minha nudez já é fatal».


Quinze pessoas em palco, sempre em palco, sem pano, sem cenas nem vírgulas. Ninguém entra e ninguém sai, porque o palco é um armazém.

Os quinze no armazém são portugueses que regressaram das ex-colónias. Um acontecimento real e luso é o barco da história do Armazém que o TEB, o grupo de teatro do Instituto Politécnico de Bragança, foi contar no FATAL na primeira vez que nele participou. Os personagens remexem nas muitas malas espalhadas pelo espaço fechado, procuram. É que perderam a bagagem, os filhos e o cheiro no confuso processo que os fez regressar.

«Era um mundo que se desmoronava, eram histórias de vida que ruíam e os protagonistas desta tragédia não sabiam se estavam no fim ou no início da História; sabiam-se, apenas, perdidos, com as suas vidas suspensas, reféns de um destino que não escolheram» dá o tom à sinopse.

Na encenação de Helena Genésio não há gritos. Ninguém se acende. Procuram, deambulam, trocam diálogos que nos prendem de bonitos, da autora Vânia Cosme. São desesperados pensantes, as personagens, reflectem fundo e poeticamente o seu desespero em belas metáforas. Sempre quase sussurrando, sempre tristes, sempre triste. As palavras a quebrarem em fragilidade no armazém.

Às vezes são todos iguais. Sentem e pensam e são só um. Dizem longas frases em coro. O andamento de toda a peça é lento e monótono, as frases mastigadas em leitura de salmo vincam o tom do princípio ao fim, mas que não maça porque o tempo da peça é curto. É uma injecção ou um guincho agudo, mas em grave.

«Em 1975, crianças ainda, vivemos juntas a experiência dramática do Armazém. Durante uma semana inteira procurámos, sozinhas, por entre milhares e milhares de malas, sacos e caixas, as duas malas da avó Joaninha. Nunca as tínhamos visto. Ao fim de oito dias conseguimos descobri-las através das etiquetas. Corria o mês de Outubro e o êxodo dos portugueses das ex-colónias estava a chegar ao fim… Desses dias terríveis apenas recordo o Armazém, o meu choro ininterrupto e o calor da mão da minha irmã a que eu me agarrava desesperadamente com medo de me perder».
Armazenado.

Para fazer serviço a Deus, E arrenegar o Diabo

Maio 27, 2007

 

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Como diz o povo «a água dorme de noite, não sendo bom bebê-la a não ser na noite de S.João». E é numa noite de S. João que tudo começa. Como o ciclo da água. Como o ciclo de uma estória. Num palco recheado de cores e gentes, o ambiente é de festa, banhada a gargalhadas e rodopios frenéticos. Um rapaz recebe as graças do baptismo pagão, enquanto cruza a fronteira entre o ser adolescente e a idade adulta. O divino vinho banha os corpos e as goelas sedentas, e a Cantiga dos bebedores embriaga os corações vadios. É uma autêntica farra dionisíaca do GEFAC – Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra – que incendeia todo o Teatro da Politécnica.

Empoleirados do lado direito do palco estão, de baixo para cima: uma violinista, quatro guitarristas, um acordeão, dois tambores e quatro cantoras. Todos rigorosa e coloridamente trajados como manda o folclórico figurino bem português, bem nosso. Elas: saias rodadas bordadas a flores, lencinhos na cabeça e socas por fora das meias rendadas. Eles: calça negra e camisa branca, colete preto e lenço ao pescoço. Mas os intrumentos, esses, vão variando numa miscelânea de sons bem familiares como o cavaquinho, a gaita de foles, o pandeiro, e mesmo aqueles que reproduzem a natureza como as conchas, a chuva, o chilrear dos pássaros. Ao lado, estende-se uma rede branca desde o tecto até ao chão, em jeito de tela, onde vão surgindo imagens de vídeo. Também é lá a divisória entre um plano frontal do representado e um outro imaginado, um véu fronteiriço entre a realidade e o sonho. Uma enorme variedade de elementos num espectáculo globalizante, que assenta não só na encenação da música popular portuguesa, mas no próprio sentimento e manifestações que provocaram o seu aparecimento, de Norte a Sul do país.

Mas voltemos à estória de A água dorme de noite. Depois do baptismo e de dançarem o Chote e cantarem Ó meu São João Baptista, o jovem delira nas angústias da vida. Minhas mãos molho, Minha cara lavo, Para fazer serviço a Deus, E arrenegar o Diabo… Minhas mãos molho, Minha cara lavo, Para fazer serviço a Deus e arrenegar o Diabo. Seres mascarados impulsionam o momento de divagação da noite. Mentes convulsas sofrem com o pesar do passado, as tentações do presente e as angústias do futuro. São João adormeceu. Mas o espectáculo decorre num ritmo circular e contínuo de alegria e tristeza, euforia e amargura, dia e noite, luz e treva.  As estórias jorram, como a água, como a música. Depois da noite vem o dia, e com o dia a labuta. Num momento extremamente bem conseguido, a tela exibe em “pormaior” uma senhora que caminha sobre uma grande roda de água. Com os pés duros, calejados, e uma doce face cansada de rugas. Minha roda está parada, e Ai ajuda-me, ó camarada. Sofremos. Penamos com ela. No campo, debaixo do sol ardente que queima os corpos trabalhadores, quais arados humanos, entre os homens acende-se o fogo da contrariedade. Porque o Homem é também capricho, orgulho, rivalidade, e das lutas da terra nascem as pequenas batalhas. Armados de chapéus floridos que as moçoilas criaram junto ao rio, os rapazes armam-se de paus e dançam as danças de Paulitos como Padre António e Sr.Mio. Clac! Clac! Clac! Clac!, é um ritmo frenético numa dança que parece mentira de tão coordenada.Clac! Clac! Clac! e o pés saltitam ao compasso dos tambores que rufam. E no meio da guerra que se tornou galhofa através da música, segue-se a calma, o cansaço… e o amor. Ele que chega intruso, não fosse ele o amor. Atrás do véu a sedução, e a preparação para o tão esperado encontro. Entre os pares que já bailam, o rapaz encontra a sua amada e oferece-lhe uma tímida flor. Ai que me dobraste o encanto! E todos dançavam, quando subitamente a música pára e os corpos unidos descendem, rendendo-se ao fogo da paixão. Rebolando (literalmente) sincronizados pelo chão, de súbito tudo o que se vê são Saias e uma Chula Passada bem ao sabor minhoto. A noite começa então a suspirar ao sabor da chuva. E como eles a elas, o mar invade a terra, para do seu ventre brotarem novos frutos. Um véu branco desliza sobre os corpos que simulam as ondas.

Na tela lê-se: «Tudo dura o que duram os reflexos agitados. Só este rio imenso segue o seu curso inalterável e incessante para aquele mar profundo» (Raul Brandão, Os Pescadores)

 

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É de noite. E como o terminar de um ciclo não o seria sem ela, chega a insustentável Saudade. E a água, finalmente, adormeceu.

Os sete pecados sem texto

Maio 26, 2007

 

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Pegar nos sete pecados mortais e explorá-los em palco. Sem palavras, apenas quadros estéticos numa sequência de situações extremas. Encenado para adivinhar. Acordeão, sapatos vermelhos, tela com exibição de nuvens e de sombras, carícias-malícias, silêncio profundo, gritos histéricos, uma pitada de nudez. O homem, a mulher e o número sete que não os larga.

Um baú que serve para tudo. Até para as metáforas que lhe queiramos inventar. Plagiai foi apresentado TeatrUBI (grupo da Universidade de Beira Interior – Covilhã) e assumiu-se como performance contínua de pecados interligados. A ausência de texto intriga – estamos ou não preparados para aceitar um actor a comunicar sem recurso à palavra. António Abernú, encenador do quadro, explica em texto assinado: «O recurso a uma linguagem não verbal e à ausência de um texto levou todo o processo de criação a fortes incertezas sobre o que é o teatro ou do que se pode com ele fazer». É legítimo. Desta voz sincera sai a opinião que defende que este espectáculo só teria a ganhar com uma jorrada de texto bem construída. E, já agora, com menos minutos de um quadro que apresentava uma dança provocadora, a quatro, com línguas nos lábios e auto-carícias no corpo e música constrangedora de fundo (qualquer coisa ride me babe). Isso, como muito se vê entre vómitos nas discotecas da moda. Enfim, opiniões.

Depois há a interactividade tímida. Foi distribuído na bilheteira um papelinho onde cada espectador teria que escolher um dos sete pecados com o qual mais afinidades deveria ter. Resultados, lidos muito perto do final do espectáculo: 27 por cento inclinou-se para a luxúria, 21 para a gula e preguiça, 13 de arrogância, 9 de ira, 7 de avareza e 2 por cento de inveja. Mas, como todos os políticos muito bem nos ensinam, os números e as sondagens valem o que valem, deixemo-los respirar livremente e cada um que conclua o que quiser. Mea Culpa colectiva.

Ora, para além da ausência total de texto, será igualmente difícil encontrar em Plagiai uma narrativa lógica e assumida. Mais uma sequência experimental de quadros, exercícios de expressão dramática cozidos a agulha, novelo de pecados e tentativas falhadas de redenção. Para quê? Porquê? Ainda o encenador: pela «procura de sintetizar e criar uma essência para cada pecado, onde os espectadores se possam encontrar e, inconscientemente, fazer um julgamento de si dos outros». Que levante o dedo e a voz o primeiro que achar que tal empreitada não é legítima. Por aqui, consente-se.
Está encerrada a sessão.     

Passatempo

Maio 26, 2007

O RASCUNHO tem para oferecer aos leitores 15 convites duplos para a Festa de Encerramento do FATAL. Para os conseguirem basta que respondam acertadamente à seguinte questão (enviando a resposta para o mail de serviço da nossa cobertura do Festival: rascunhonofatal@gmail.com):

A peça Corpo presente foi interpretada pelo grupo portuense X-Acto. O texto e a encenação foram assinados por uma jovem dramaturga nortenha. Como se chama?

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Programa da Festa Fatal – Sexta-Feira, 1 de Junho, Santiago Alquimista (Lisboa):

 

22h: Cerimónia de Entrega de Prémios
24h: Festa com Les Patis (Dj & Vj) e NuCIvo (programação vídeo)

 

Preços: 4 euros (Locais de venda: Reitoria da Universidade de Lisboa, Nas Associações de Estudantes aderentes)

ou 5 euros no Santiago Alquimista no dia 1 de Junho.

 

Sítio Oficial do FATAL

Quando a campainha toca é sempre alguém

Maio 25, 2007

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Brilhante, brilhante, brilhante. Aí fica o triângulo de adjectivo único. Raios partam os adjectivos e quem deles abusa! Havia vários apontamentos sobre a peça, escritos a caneta preta também no escuro mas não os consigo perceber. Mas contra sabotagens acidentais pode bem o teatro e uma peça como esta. A cantora careca, criação do delirante Eugène Inesco, apresentado pelos portuenses Máscara Solta (da Faculdade de Letras da Universidade do Porto) não precisa de cábulas para nada. É uma recriação muito próxima do irrepreensível.

Mas vamos lá ver se organizamos as ideias. O texto é absolutamente avassalador. Entre o surrealismo, a poesia e o humor sarcástico. Ridendo Castigat Mores – aquela coisa em latim para dizer que a rir se criticam os costumes. Voilá! Muito ao jeito de Boris Vian, mas diferente, diferente. A interpretação das personagens e  de situações caricatas foi aplicada com o nível ideal de extremo. Quase sempre no volume certo. Quando assim é, não há muito mais a dizer. Não há queixas, apenas um profundo agradecimento por nos dizerem assim um livro, mostrarem com competência o mundo interior de um autor.

Tudo começa com um quadro da Gioconda ou Mona Lisa ou La Joconde (aquela coisa numa tela de Da Vinci) iluminado numa parede. Depois a família Smith: um homem e três mulheres. A família Martin: um homem e quatro mulheres. A empregada doméstica. A Senhora Comandante dos Bombeiros. E uma cascata de situações ridículas todas passadas na sala de visitas dos Martin, «nos arredores do Londres» (dito com vaidade e sotaque very british). Foi escrito em 1954, ontem portanto: «as conversas cegas, as palavras ocas e doentes». Confirma-se, ontem.

«Por que é que na necrologia dizem sempre a idade dos falecidos e nunca dos recém-nascidos?». A empregada foi ao cinema. Os patrões reclamam. «-Mas foram vocês que me autorizaram! – Não foi de propósito». A campainha toca. Quatro vezes. Deve ser alguém. Não! Não era ninguém. Quando a campainha toca é sempre alguém. Não, quando campainha toca nunca é ninguém. Discussão filosófica da noite. A Senhora Comandante entra, faz umas gracinhas de circo, posa para a fotografia, tão engraçada que ela é. Mas é assunto sério que a leva lá, lembra-se meia hora depois: Há fogo nesta casa. Não, não há. Nem um bocadinho? Não. É pena. Pois é, isto anda mau para todos. Tem consciência social a Senhora: «Os naturalizados têm direito a casas mas não a que lhe extingamos o fogo se elas começarem a arder». É bonito.

A cantora careca é uma prisão. Um vício. Não devia ter fim. Desconfio que o autor tenha deixado a última página em branco, por esse mesmo motivo. E talvez por isso a opção da Máscara Solta para a cena final tenha sido tão estranha. Um caos de dança em palco, com cada um dos autores a aproximar-se do público, à vez, e soltar a primeira frase oca que lhe vem à cabeça. De improviso, acredito. Deixem-me acreditar porque assim é mais bonito. Os fins das coisas são sempre difíceis. Não há fórmulas. Sei lá. E este foi estranho. Ainda mais depois de uma peça… qual era mesmo a base do triângulo?… isso, brilhante.
A propósito dessa questão, ou ampliando-a ainda mais, José Luís Costa, actor principal da peça Silêncio (pelo Teatro Universitário do Minho) já me tinha deixado um segredo. Que me perdoe por agora o tornar público. Mas é demasiado bonito para que não seja partilhado: «Se o primeiro espectáculo é como dar à luz, o último é como perder um filho».

Fica pelo menos a última frase com que se despediram os actores da Máscara Solta: «Não é por ali. É por aqui».

Eugène Ionesco

Não estamos sós

Maio 25, 2007

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A organização do FATAL disponibiliza também um blogue dedicado ao Festival. Chama-se Fatal nos Bastidores e apresenta, para já, um poderoso texto de Jorge de Sena acerca do teatro universitário.

Justifica atenção,
pode ainda vir a ser um foco fértil em interesse.

Como resistir a um Clássico?

Maio 24, 2007

 

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Primeiro impacto: o fascínio pela máscara. Clássica, contemporânea, criada sem qualquer tipo de preocupação com esses conceitos estéticos? Não interessa. É um objecto total. Arte em palco, na rua, onde quer que a máscara esteja. Mistério, atracção, fascínio. Segundo impacto: o quadro estático a gerar impaciência com que a peça começa. Contudo, as máscaras. Um deus ou homem no chão, amarrado pelos pés. E as máscaras são um coro a tempo inteiro.

Oedipus e a tragédia com 2400 anos, é Sófocles. Oedipus pelo trabalho dos mesmos criadores de Ó Édipos, performance também já aqui referenciada. Os actores do dISPArteatro (do Instituto Superior de Psicologia Aplicada) aproveitam a estética desse trabalho e acrescentam-lhe texto e diálogo clássico vindos directamente da pena do autor (e subsequentes tradutores e adaptadores) grego. E aí começam os problemas. Ai desgraçado Édipo!

Se a encenação e o conceito são dignos do mais sincero dos aplausos, já o resto deixa muito, tudo, quase tanto como o tudo, a desejar. Os jovens futuro psicólogos não resistiram à narrativa floreada de Sófocles, aos exigentes e extenuantes diálogos, e apresentaram uma versão quase imperceptível, por trapalhona, por muito pouca preparação, das palavras daquele que é «um dos maiores intelectuais da antiguidade clássica». É o risco dos clássicos: ou são irrepreensivelmente interpretados ou espalham o desconforto pelas cadeiras de quem os vê. dISPAteatro afogou-se no texto para nunca mais respirar. As palavras, ensopadas, sentiam-se mal e semeavam o mal-estar de quem não percebe. E, mesmo para quem não conhecia ainda a tragédia, para os optimistas que viam no texto mais uma missão de curiosidade que de exigência, o eco que lhes chega será sempre traumático.

«Que algum socorro nos alcance». E foi mesmo uma pena. Porque toda a estratégica cénica estava preparada para funcionar com elevados níveis de eficácia. As máscaras, uma vez mais, as trocas de figurino em pleno palco quase com uma invisibilidade tal que o público nem se apercebia, o constante jogo físico entre o coro e as personagens mais importantes à volta de Édipo, a sonoplastia reduzida ao mínimo e ao útil. Uma pena, com uma credível sensação na ponta que, com mais alguns meses de trabalho em volta do texto e da melhor forma de o dizer (nota da redacção: e a ler Sinisterra), o resultado final a apresentar poderia chegar a níveis muito interessantes.

Para todo o efeito, fica a reflexão interior de uma das mais intensas tragédias da história da arte dos palcos. E, sendo teatro, também é psicologia o que aconteceu na noite de 23 de Maio, no Teatro da Politécnica. Por exemplo: «a vertente centrada no indivíduo, no processo de auto-descoberta, no “conhecer-te a ti mesmo” escrito no tempo de Delphos», a «busca da verdadeira identidade», «a incapacidade do homem contemporâneo de ver e compreender os factos que o levaram a situações dramáticas». Tudo reflexões inerentes à tragédia, assumidas frontalmente pelos intervenientes da peça.

E por isso as máscaras. E por isso o arrancar das máscaras e o vendar os olhos, metáfora perfeita, depois de perceberem que Édipo arrancara os seus. E a fortíssima imagem da máscaras abandonados no chão. A caminhar sem ver, em busca interior.
Impacto último: um final irrepreensível que pede um desconto de tempo para meditação. Objectivo atingido, sobretudo para quem não é muito exigente com a técnica e não se importa de não perceber alguns diálogos. Mas, sim, objectivo atingido. E, sim, o abraço de Ó Édipos, em pleno Largo Camões, a um suposto anónimo que sofre é muito mais terapêutico para os sentidos, que um abraço em palco a um Édipo distante que arrancou os olhos há mais de dois mil anos.

«Se dormisse, talvez eu amasse…»

Maio 23, 2007

 

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Deviam ser 21h30, mas o relógio de pulso dizia enervado e a suar que as 22h30 já lá estavam no monte de gente que se acumulou para ver a peça que estava atrasada. Parecia o fim. Mas a partida para os bancos da plateia ainda nem começara. Fim de partida, chamava-se a peça. Grupo NEXT, da Faculdade de Belas Artes de Lisboa assumiu o palco. «Parece que é de Beckett e foi traduzida do original francês para o castelhano por Ana Moura Moix», diz o rapaz que lê a sinopse em voz alta pela pelo menos terceira vez. E finalmente, ao 44º empurrão e à aparição das primeiras bifanas no pão para os que tinham jantado cedo e enganavam os nervos com carne, entra tudo para a sala preta da tela preta. (O ‘finalmente’ sai com um alívio desesperante).

O cheiro a remédios e a música alta que soa a uma mistura inexplicável de metralhadora + banda sonora de filme de ficção científica + broca de dentista dão início às primeiras alucinações por parte dos espectadores que apreciam a Unidade de Terapia Intensiva (UTI). É a autêntica consulta colectiva. O desespero da gente sentada, da gente deitada, da gente cansada de esperar pelos sonâmbulos verdes que aparecem do outro lado da sala a um conta gotas interminável de silêncio. São eles sonâmbulos de bata verde e máscaras de gás: guerreiros duma vida telecomandada à dezena. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10 doentes da vida moderna sentados num ambiente à Admirável mundo novo do Aldous Huxley. E o homem morto jaz ali no meio. Nu. Inocentemente nu e com um farrapo vermelho na mão, legado dos vermes que o esperam amanhã na terra. E pendem do céu negro de tecto-de-teatro garrafas com líquido às cores, cujos tubos invadem o corpo do homem. Daquele homem. O homem que sofre paranoicamente deitado, títere duns tubos que já não o deixam urinar de pé, para mostrar que é um homem, caramba.

É a paciência de Job começar a ser testada pelas cadeiras que não param quietas, é o ‘não se aguenta’ e é o homem que geme furiosamente com versos de raiva que leu nos livros de quando era menino (e urinava de pé) e sonhava com os sonhos. E sim, só aquele homem é que fala. Diz que «a Internet é que liga o mundo, mas na África as mortes continuam a acontecer». Teatro-monólogo sem fim à vista que diz coisas às vezes mágicas com gritos de mulher a parir. Incomoda? Sim, muito. E o homem que não se cala diz uma coisa que faz esquecer que a peça está a ser um sufoco, pergunta se «duvidamos dos olhos azuis de Cristo». Não sei. Duvidamos?

O som de fundo que agora se parece a um martelo pneumático no máximo já não é suportado por nenhum ouvido humanamente normal, porque causa tremores a caminho do tímpano. (Mas por que é que a plateia está cheia de gente a ver isto?). É o quase a A aula de anatomia de Rembrandt, mas não está lá nenhuma aula de anatomia. Mas é o quase. E o Homem tenta mexer-se, mas só mexe tubos e diz que «isto é o fim, isto vai acabar», que no fundo é o que algum-muito público quer há já uma hora atrás, porque já é impossível conseguir ver aquele homem rodeado de seres verdes, inertes e mudos. «Já são horas de que isto acabe», sugere, enquanto quer morrer e não o deixam, quer dormir e não o deixam… «Se dormisse, talvez eu amasse. Íamos atrás dos nossos desejos perdidos». E o comando piolhoso que causa comichão de choques interrompe-lhe uma bonita frase que diz que «Há um coração de sangue vermelho na minha cabeça cega». Mas o que o homem quer e repete bem alto e bem furioso é que tem «vontade de fazer xixi». Tem, mas não pode, porque o tubo suga-lhe todos os líquidos da essência da vida. E ele sonha com o maior desses líquidos, o mar. E quer «partir só a caminho do mar», mas fica perturbado e nunca se cala, nem o barulho se cala, nem as pessoas se calam, nem o escuro se cala quando deixa o homem cego ver que um dia todos seremos como ele.

Reza-se o Pai Nosso. (Sim, já nem o mais santo aguenta dentro da sala.) De repente ficamos todos às escuras e é a gota-de-água da fúria contra o homem que nos causa tanta fúria, mas de quem partilhamos essa fúria e não sabemos. Mas vá lá, ele perdoa-nos e cospe bem alto «Fim da palhaçada» – o que para a assistência das 00h02 quis dizer Fim.

(Irritou-irritou-irritou-irritou-irritou-se muito? Então, parabéns, por ter compreendido a peça).

A imaginação, a verdade: teatro

Maio 23, 2007

 

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Aí está a peça chave da edição deste ano do FATAL. Enquanto todos arriscam, de extremo em extremo, de dúvida em decisão, Pervertimento apresenta uma profunda e bem sustentada reflexão sobre as mais pertinentes questões que rodeiam o mundo teatro. José Sanchis Sinisterra, o valenciano, é autor do magnífico texto apresentado pelo grupo CENAtÓRIO«a meta-análise do teatro». Semiótica pura sobre as artes de palco. Encenação coerente e envolvente.

Então começa assim: no centro do palco despido, uma caixa de luz – «uma caixa mágica que abre um espaço numa nova dimensão». Nada mais. Suficiente para sonhar, imaginar, pensar. E a constante provocação e confrontação do papel do público: «Se fosse aos senhores eu protestava. Trazê-los para aqui para ver isto?»; o que realmente acontece de interessante não se passa em palco, mas ali ao lado, diz um dos actores.
Antes disso. Dois actores encontram finalmente a caixa, glorioso diálogo de abertura. O que é agora sempre esteve aqui? Para que serve agora? «- Já não te interessa? – Não.
– Depois de tanta procura? – Precisamente»
.

O actor está dentro da personagem. A personagem está dentro do texto. O texto vem de dentro do autor. O autor é uma personagem que escreve dentro de uma pessoa. Antes e depois do ciclo, entremeado, nas extremidades, o teatro. É bom pensar globalmente.
«Uma mulher e um homem, frente a frente, em silêncio. Isto sim é teatro!» ou «No teatro tudo é uma questão de imaginação» ou «No teatro tudo é uma questão de verdade» e «Nada de acções fáceis. Alto!».

A encenação, com ou sem caixa no meio, é um magnífico exercício de descontinuidade. Fragmentos contínuos, entenda-se. Ou, como os próprios responsáveis explicam, «um espectáculo compartimentalizado em cenas/sketches». Silêncios nos lugares certos, texto a respirar com precisão na maior parte do tempo, presença física forte, nos gestos, nos olhos. Momento de verdade, comprova-se. A imaginação. O gelo e o fogo. Peça-chave porque total. À luz da proposta, era muito difícil fazê-la ir mais longe. Se é certo que nem tudo é uma questão de distâncias, também o é que a ordem natural das coisas foi pensada para desaguar em destino seguro. Assim foi. 

E o que acontece quando um actor descobre que o texto que diz, e diz sentir, e diz assumir, não é seu? «Enoja-me abrir a boca sabendo que nada do que digo sou eu quem o diz». Quem diz tudo é o autor, diz um actor inteligente. Até isto que diz agora. Até o que fica por dizer. O actor não diz nada. E «se nos calarmos, também será dele este silêncio nosso». Tramado descobri-lo em palco. Autor sádico a brincar às marionetas com os actores.

E o que acontece quando uma personagem se recusa a sair do palco na cena final com o corpo de autor. E reflecte sobre o que lhe vai acontecer depois de cair o pano. Actor vangloriado, aplaudido e personagem a apanhar pó e teias de aranha. «O actor é o actor, eu sou eu», diz a personagem. Não tem nada contra o primeiro, mas por favor pensem um bocadinho no segundo, por uns minutos.

E agora sim, omitidas outras cenas da peça, o teatro também pode ser a arte da omissão, podemos ver o pano cair com tranquilidade. Aplaudir porque é normal aplaudir no final, sabe bem como o espreguiçar, descarga a consciência também. E uma inequívoca sensação no final do espectáculo: esta noite o público foi respeitado. E terminar o texto com uma elucidativa explicação dada pelos intervenientes do CENAtÓRIO:
«O teatro é feito para os outros, ultrapassa os limites masturbatórios dos “artistas”, e obriga-nos a um altruísmo que provavelmente não será mais que o entendimento da comunicação como o processo de chegar ao público».

 
Sinisterra (wikipedia)